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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

Do Gerúndio ao Pão Quentinho

Ilustração por Ana Helena Reis, feita a lápis H para desenho no Canson.

Coisas intragáveis e demais outras degustáveis do meu cotidiano que compartilho aqui com você

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Hoje passei quase uma hora tentando cancelar uma linha telefônica. No meio da espera interminável, lembrei de uma crônica genial de Paulo Mendes Campos, escrita em 1959: Coisas Abomináveis. Ele listou 60 situações insuportáveis e, pasme, muitas continuam valendo mais de meio século depois.

A palavra “abominável” já soa quase arqueológica, não acha? Então, decidi atualizar com um termo que me parece mais divertido: Coisas Intragáveis.

Da lista do cronista, selecionei dez que permanecem firmes no pódio do incômodo: passar pela alfândega; falta d’água em casa; pessoa que fala muito próximo do nosso rosto; criança de nariz escorrendo; mão suada; a penúltima hora de qualquer viagem; sala de espera; declarar imposto de renda; caixa que diz “volte amanhã”; e ser apresentado quatorze vezes à mesma pessoa.

E, já que entrei no clima, fiz minha própria lista de intragáveis: desconhecido que insiste em contar a vida inteira; dirigir para o endereço antigo no piloto automático; bater à porta e esquecer a chave dentro; alguém pegar o último pedaço de doce; atendente que me chama de “amorzinho”; URA telefônica; o famigerado gerúndio: “vou estar te ligando”; figurinhas dançantes no WhatsApp; topada que arranca a unha; e, para fechar, crise de soluços no meio de uma reunião.

Depois dessa overdose de azedume, me senti meio intragável também. Então fui buscar um antídoto – e achei. Em 1962, o cronista escreveu Coisas Deleitáveis, e suspirei aliviada. Tudo bem que tive que dar um toque mais atual ao termo – optei por Coisas Degustáveis. Escolhi dez para me inspirar: dormir cansada; aroma de madeira; rasgar papéis inúteis; vento da montanha; pão saindo do forno; café da manhã no hotel; descobrir que uma pessoa feia tem uma voz linda; ver crescer uma árvore que plantei; brincar com argila; lareira em noite fria.

Se fosse acrescentar as minhas degustáveis, diria: ver um pôr do sol avermelhado, caminhar descalça na praia, tomar vinho com amigos, ganhar flores inesperadas, reencontrar alguém querido, passar a tarde lendo na varanda, mudar o corte de cabelo, andar de mãos dadas, receber um beijo e… escrever essa crônica. Porque, no fundo, a vida é isso: engolir algumas coisas intragáveis e saborear outras tantas deliciosas. No saldo, felizmente, ainda dá para degustar.

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Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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