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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

Onde mora o seu olhar

Ilustração de Ana Helena Reis feita com Apple Pen sobre recorte de imagem

Ao captarmos o que nos cerca com o olhar, conseguimos romper com a racionalidade objetiva e nos conectarmos com significados e emoções que vão muito além do objeto

Nunca havia pensado na morada dos olhos, e sua relação com a inspiração necessária para um bom escritor, até que me caiu no colo o texto magnífico de Rubem Alves – A arte de ver.

Me encantou esse termo, morada dos olhos, pois ele dá uma outra dimensão à diferença entre o ver e o olhar, que está relacionada à morada onde guardamos aquilo que nossos olhos captam.

Se captamos as imagens somente com a visão, elas são armazenadas em uma caixa de retratos. Colecionamos imagens que nos são úteis para referenciar, objetivamente, o mundo que nos cerca.  Pensando na arte da escrita, essa caixa nos fornece material para descrever a forma, a cor, o tamanho dos objetos que vemos – um bolo de chocolate com cobertura, por exemplo. Se bem descrito, podemos até sentir na boca sua cremosidade.

Mas, se captamos o que nos cerca com o olhar, se abrimos nossos escaninhos, conseguimos romper com a racionalidade objetiva e nos conectarmos com significados e emoções que vão muito além do objeto. E, aí, a morada desse olhar é uma porta aberta dentro de nós; o olhar nos habita, mas é livre, cigano, vagando por aqui e ali. É o olhar do escritor poeta, que ao pousar em um bolo de chocolate, é capaz de sentir e nos fazer sentir, em seu texto, a cremosidade de um beijo apaixonado.

Como poeticamente colocou Alberto Caeiro (citado no texto de Rubem Alves), para isso é preciso “partejar olhos vagabundos”.

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Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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