Por Fernanda King
Estamos ensinando nossas crianças a pensar ou apenas a escolher um lado?
Em um Brasil cada vez mais polarizado, essa pergunta deveria preocupar famílias, educadores e gestores escolares. Enquanto adultos transformam divergências políticas em conflitos pessoais, crianças e adolescentes começam a reproduzir discursos, rótulos e hostilidades que muitas vezes sequer compreendem. O que antes era uma discussão entre eleitores agora atravessa os portões das escolas. E qual é o preço dessa antecipação?
Não considero saudável que crianças sejam estimuladas a assumir posições partidárias antes mesmo de desenvolverem maturidade para compreender a complexidade dessas escolhas. Isso não significa afastá-las da educação política. Pelo contrário. Significa compreender que formar cidadãos é muito diferente de formar militantes.
A escola deve ensinar democracia, direitos, deveres, funcionamento das instituições, pensamento crítico e respeito à diversidade de opiniões. Mas não pode transformar a sala de aula em uma extensão das disputas ideológicas dos adultos. Essa preocupação se torna ainda mais urgente quando observamos a violência nas relações escolares.

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.
Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), do IBGE, 27,2% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos relataram ter sofrido bullying recorrente nos 30 dias anteriores à pesquisa. Em 2019, esse percentual era de 23%. Estamos falando de mais de um quarto dos adolescentes submetidos repetidamente a situações de humilhação e intimidação. E o que fazemos diante disso?
Embora existam leis e iniciativas de prevenção, ainda encontramos escolas que tratam o bullying como simples desentendimento entre colegas, sem protocolos consistentes de identificação, acolhimento e intervenção. Agora, imagine acrescentar a esse cenário mais uma razão para excluir, ridicularizar ou hostilizar o outro: as convicções políticas de sua família.
Uma criança não deveria ser julgada pelo candidato em quem seus pais votam. Tampouco deveria sentir necessidade de defender posicionamentos que muitas vezes apenas reproduz, sem compreender. Quando o sobrenome político dos adultos passa a definir as relações entre crianças, fracassamos em uma das tarefas mais importantes da educação: ensinar a conviver com as diferenças.
Em minhas experiências internacionais, uma das reflexões mais importantes veio da Finlândia. Durante minha passagem pelo país, aprendi sobre a importância de distinguir educação política de doutrinação partidária. Essa compreensão encontra respaldo nas orientações da Agência Nacional Finlandesa de Educação: o ensino deve ser independente de compromissos político-partidários, mas deve promover a participação democrática, o pensamento crítico e o respeito às diferentes opiniões.

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Lá, a diferença fundamental está no propósito: a escola apresenta caminhos para que o aluno construa suas próprias convicções, em vez de determinar quais convicções ele deve adotar. Outro aspecto que considero especialmente relevante é a continuidade educacional. A Finlândia possui um currículo nacional estruturado e instituições técnicas responsáveis por orientar sua implementação. Evidentemente, a educação também está sujeita às decisões dos governos. Entretanto, a existência de referências nacionais duradouras oferece uma base importante para a continuidade do trabalho pedagógico.
No Brasil, precisamos amadurecer essa discussão. Mudanças de gestão frequentemente trazem novas prioridades, programas e orientações. Quando essas alterações não preservam o que já funciona, quem sofre são os professores, obrigados a reorganizar continuamente suas práticas, e os estudantes, que necessitam de continuidade para aprender.
Educação precisa ser uma política de Estado, não um projeto que recomeça a cada eleição.
Defendo que crianças aprendam desde cedo a participar de decisões coletivas, ouvir opiniões diferentes, argumentar e respeitar regras. Na primeira infância, isso começa em experiências simples: dividir brinquedos, esperar a vez, resolver conflitos e compreender que o outro também tem direitos.
Na adolescência, podemos aprofundar o conhecimento sobre instituições, eleições, participação social e responsabilidade cidadã. Tudo isso sem exigir alinhamento partidário. Não precisamos de crianças repetindo palavras de ordem. Precisamos de crianças aprendendo a fazer perguntas.
Também precisamos reconhecer a responsabilidade das famílias. Não podemos exigir respeito dentro das escolas enquanto naturalizamos agressões verbais, intolerância e desqualificação de quem pensa diferente dentro de casa.

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A infância não deve carregar o peso das guerras ideológicas dos adultos.
A escola tem o dever de proteger o direito de aprender, conviver e desenvolver autonomia intelectual. Isso exige combater o bullying com seriedade e assegurar que o debate político seja uma oportunidade de formação, jamais um instrumento de constrangimento ou imposição.
A democracia não se fortalece quando todos pensam igual. Fortalece-se quando aprendemos a discordar sem desumanizar o outro. Se queremos construir um país menos dividido amanhã, precisamos começar ensinando nossas crianças a conviver hoje. Porque a educação deve formar cidadãos livres para pensar, e não herdeiros obrigatórios das disputas de seus pais.
Enquanto brasileiros desperdiçam tempo e energia se agredindo por políticos, deixamos de exercer o papel mais importante de uma democracia: fiscalizar e cobrar aqueles que elegemos. Quanto mais dividida está a população, mais fortalecida fica a classe política, que encontra na polarização uma conveniente distração para escapar da cobrança por resultados. Criamos verdadeiras torcidas organizadas em defesa de candidatos, mas somos incapazes, muitas vezes, de lembrar em quem votamos para vereador na última eleição, muito menos de acompanhar seu trabalho.
Estamos trocando a consciência política pela paixão partidária, o debate pela agressão e a cidadania pela idolatria. E o mais grave é que estamos ensinando esse comportamento às nossas crianças. Um povo dividido se enfraquece. Uma classe política que não é cobrada se fortalece. E uma sociedade que confunde democracia com rivalidade compromete não apenas o presente, mas também o futuro das próximas gerações.






























