Skip to content

A ausência paterna e seus efeitos sobre a constituição da identidade

Psicóloga Maria Klien reflete sobre as consequências subjetivas do afastamento paterno na formação psíquica de filhos e filhas

O afastamento da figura paterna repercute para além das dinâmicas familiares, alcançando dimensões estruturantes da constituição subjetiva. A ruptura ou negligência nesse vínculo interfere diretamente nos processos de identificação, fragiliza marcos simbólicos e compromete as formas como o sujeito se relaciona com a afetividade, a alteridade e as próprias experiências emocionais.

A psicóloga Maria Klien observa que a função exercida pelo pai, seja de modo presencial ou simbólico, opera como elemento estruturador nos processos de desenvolvimento psíquico.

A função paterna atua como eixo regulador no início da vida psíquica. Quando se verifica a ausência, a descontinuidade ou o descomprometimento afetivo, há um enfraquecimento na transmissão de limites, na inscrição de figuras de autoridade simbólica e na formação de referências que favoreçam a constituição de trajetórias subjetivas consistentes”, afirma a psicóloga.

Imagem de PublicDomainImages por Pixabay

Publicidade | Dolce Morumbi®

Segundo ela, os efeitos dessa ausência tendem a manifestar-se de modo silencioso e contínuo. “Indivíduos que cresceram sem a mediação paterna podem apresentar dificuldades em reconhecer estados internos, sustentar vínculos afetivos ou elaborar frustrações sem recorrer a defesas como o isolamento, o excesso de racionalidade ou reações agressivas. Essas expressões não decorrem de escolhas deliberadas, mas da impossibilidade de acessar modelos confiáveis nos períodos iniciais de constituição psíquica”, analisa.

Maria pontua que, em muitas situações, a carência dessa referência é compensada inconscientemente por construções idealizadas. “Sem um espelho que possibilite um pertencimento simbólico, muitos sujeitos constroem imagens de autossuficiência ou força inabalável. No entanto, por detrás dessas representações, permanece um vazio relacional que impede o contato com o sofrimento. Essa dissociação entre o vivido e o manifestado é recorrente na escuta clínica”, explica a psicóloga.

Ela esclarece ainda que a ausência paterna não se limita ao distanciamento físico. A presença não implicada, marcada pela indiferença ou pelo desinvestimento emocional, pode produzir os mesmos efeitos de abandono.

Há pais que permaneceram nos ambientes familiares, mas nunca se vincularam verdadeiramente. A criança capta a ausência de reconhecimento e a recusa da escuta, introjetando a ideia de não ser digna de cuidado. Essa inscrição se perpetua, sobretudo nas relações afetivas da vida adulta”, observa Klien.

Imagem de Rotaru Florin por Pixabay

Publicidade | Dolce Morumbi®

No contexto clínico, Maria sustenta que o trabalho com quem atravessou essas experiências requer um percurso de elaboração simbólica. “Muitas vezes, é necessário autorizar o lamento pelo que não foi vivido. A falta não se reverte, mas pode ser significada. A partir dessa elaboração, abre-se a possibilidade de construir uma existência que não se apoie em performances, mas em modos mais íntegros de estar no mundo”, afirma a psicóloga.

Ela acrescenta que reconhecer esses efeitos não equivale à atribuição de culpa, mas à possibilidade de compreender os enredos inconscientes que moldam a história de cada sujeito. “A escuta não busca apontar responsabilidades individuais, mas oferecer recursos para simbolizar experiências que, por muito tempo, permaneceram silenciadas”, ressalta.

Por fim, Maria considera que o reconhecimento do que foi interditado inaugura outros modos de vida. “Somente ao identificar aquilo que nos foi retirado é possível interromper dinâmicas repetitivas e construir formas de vínculo mais conscientes, menos defensivas e mais abertas à experiência”, conclui.

Maria Klien exerce a psicologia, se orientando pela investigação dos distúrbios ligados ao medo e à ansiedade. Sua atuação clínica integra métodos tradicionais e práticas complementares, visando atender às necessidades emocionais dos indivíduos em seus universos particulares. Como empreendedora, empenha-se em ampliar a oferta de recursos terapêuticos que favorecem a saúde psíquica, promovendo instrumentos destinados ao equilíbrio mental e ao enfrentamento de questões que afetam o bem-estar psicológico de cada paciente.

@psimariaklien

Demais Publicações

O complexo de vira-latas com grife

Por que a nossa crônica incapacidade de planejar expõe mais do que o atraso tático de uma Seleção?

A substituta renegada

Só por magia um homem poderá viver um tal amor que, acredito, ele sabe que não será possível

Você sente culpa por não estar feliz?

Entenda a positividade tóxica; cobrança para parecer bem o tempo todo pode levar à culpa e à negação das emoções

Como transformar conhecimento em um negócio que escala

Comunicação feita com autenticidade não precisa de manipulação

Quem define os limites da inteligência artificial

A disputa que começou nos bastidores da tecnologia pode revelar quem terá influência sobre a próxima fase da transformação digital

Um renascimento digital

Com três CDs, um DVD e quase três décadas de uma carreira consagrada, Viviane Cantarella, revela como o universo das lives transformou sua arte em cura e conexão global

No clima e no sabor da Copa

Surpreenda a galera e leve um petisco fácil e gostoso para vocês aproveitarem esse momento e torcer rumo ao hexa

A vida em Bullet Points

Às vezes tento me lembrar quem colocou tudo aquilo na lista

Quando uma música custa mais do que uma cena

Por que Off Campus reduziu as referências ao One Direction na adaptação

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

arte-painel-dolce-cantiga-crianca_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções