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Crianças estão transformando sofrimento em conteúdo e psicóloga alerta para os riscos da “espetacularização” das emoções

Imagem por autor-img em Freepik

Ao ver figuras públicas compartilhando crises emocionais, jovens podem aprender a teatralizar a dor e buscar validação no sofrimento

Um novo fenômeno vem ganhando visibilidade com episódios recentes nas redes sociais e tem preocupado especialistas.

Casos recentes de influenciadores expostos a crises emocionais reacenderam o debate sobre os impactos da internet na saúde mental. Mas, longe dos holofotes, um efeito silencioso começa a preocupar especialistas: crianças e adolescentes estão aprendendo que tristeza, raiva ou frustração podem se tornar “conteúdo” — e, pior, que a validação emocional vem em forma de curtidas, comentários e visualizações.

A psicóloga clínica e psicopedagoga Roberta Passos, com mais de 14 anos de experiência e especialização em Neuropsicologia pelo IPQ-FMUSP, explica que este processo é chamado de “espetacularização do sofrimento”. “Quando a criança vê repetidamente episódios de figuras públicas chorando ou expondo dores profundas em vídeos, ela internaliza a ideia de que demonstrar sofrimento publicamente é uma maneira legítima — e até esperada — de receber atenção e afeto”, afirma.

Segundo Roberta, o problema está na inversão da lógica emocional: “A validação deixa de vir pelo vínculo íntimo e seguro, e passa a depender da reação de uma plateia. Isso prejudica a elaboração real da emoção e pode levar a comportamentos performáticos, em que a criança ou adolescente começa a ‘atuar’ sentimentos para serem vistos”, comenta.

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Um fenômeno alimentado por algoritmos

Estudos mostram que plataformas como YouTube e X (ex-Twitter) amplificam conteúdos emocionalmente carregados — especialmente os de cunho negativo ou dramático — não porque refletem preferências reais dos usuários, mas porque esses conteúdos geram mais reações e engajamento. Em ambientes que privilegiam a “máquina da indignação”, postagens emocionalmente intensas recebem mais comentários, compartilhamentos e visualizações, mesmo que isso prejudique o processamento emocional saudável. Para crianças, que ainda estão formando a compreensão da autenticidade, a exposição constante a esse padrão pode reforçar a ideia de que a dor exposta é mais “valiosa” quando pública e intensa.

Riscos para o desenvolvimento emocional

Entre as consequências listadas por Roberta estão:

  • Dificuldade em processar emoções de forma saudável (a exposição substitui o acolhimento real);
  • Baixa tolerância à frustração (a criança espera reação imediata e em grande escala);
  • Perda de intimidade emocional (os sentimentos deixam de ser compartilhados com figuras de confiança e passam para um público amplo);
  • Reflexos na autoestima (o valor pessoal passa a ser medido por métricas virtuais).
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Para a especialista, o caminho não está em afastar crianças e adolescentes do mundo digital, mas em equipá-los para vivê-lo de forma saudável. “É preciso conversar sobre o que eles veem nas redes, ajudando a diferenciar a expressão emocional genuína de um conteúdo performático; oferecer canais seguros de expressão, como arte, esporte e momentos de diálogo familiar; e supervisionar o tempo e o tipo de consumo digital, priorizando aquilo que estimule empatia e cooperação. Assim, ensinamos que o valor de um sentimento não está na quantidade de curtidas que ele recebe, mas no cuidado real que se constrói em torno dele”, conclui.

Roberta Passos atua há mais de 14 anos como Psicóloga Clínica e Psicopedagoga, com especialização em Neuropsicologia pelo IPQ-FMUSP. Atende crianças, adolescentes e adultos em diversas queixas, entre elas dificuldade de aprendizagem. É referência em temas como desenvolvimento infantil, saúde mental na era digital e impacto das redes sociais no comportamento

Colaboração da pauta:

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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