Dezembro chega com um cheiro conhecido: mistura de pinheiro, panetones e um ligeiro desassossego. Enquanto as luzes piscam lá fora, uma luz diferente se acende dentro de nós: é o farol do fim do ano, iluminando não só o que fizemos, mas principalmente quem fomos em 2025.
É tempo de contas, sim. Das que fecham no papel e das que não fecham na alma. Nesses dias, a mulher que somos para o mundo (a profissional, a mãe, a parceira, a filha, a gestora do lar) se senta para um balanço íntimo com a mulher que mora dentro de nós. E as perguntas vêm, não como convidadas, mas como inquilinas antigas:
“Fui boa o bastante?”
“Cumpri as metas que tracei em janeiro, com aquela esperança de ano novo?”
“Meus filhos estão felizes? Cumpri meu papel de mãe?”
“Minha carreira avançou, ou apenas sobreviveu?”
“E para mim, o que fiz por mim?”

É um questionamento silencioso que acontece entre uma embalagem de presente e outra, entre a lista de compras e o cardápio da ceia. A pressão por um “ano perfeito” pode ser tão pesada quanto a sacola do supermercado, não é mesmo?
Mas hoje trago um convite diferente: e se, em vez de um balanço implacável, fizéssemos um acolhimento retrospectivo?
Olhe para trás não com os olhos de uma juíza que busca erros, mas com os olhos de uma narradora que sabe encontrar a beleza no seu próprio enredo. Por mais que pareça que você só apagou incêndios, repare: você construiu um abrigo. Por mais que sinta que apenas sobreviveu, você nutriu vidas. Cada “não desisti” foi um tijolo invisível. Cada “vamos tentar de novo” foi a argamassa que segurou os dias.
E falo isso para mim também, por mais dificuldades que tenha tido, quantas conquistas eu tive? Consegui organizar nosso cantinho, um lar cheio de amor e com a nossa cara. Sara evoluiu no aprendizado, está em uma escola que faz bem para ela e deu início a uma “carreira” como modelo. Rafael se transformou com a adolescência, mais responsável e sem perder o jeitinho carinhoso e parceiro. Ah! E passou de ano direto, valeu a pena todo esforço e dedicação! Orgulho deles, orgulho de mim, porque sei que fiz as escolhas certas mesmo diante de obstáculos, julgamentos e críticas, minha consciência está em paz.
Não cumpri todas as metas as quais me propus, mas sei que isso é questão de tempo, porque quando temos um olhar espiritualizado para as coisas, sabemos que quando algo “demora” é porque ainda não estamos prontos, ainda precisamos aprender algo. Aí é se entregar para um momento de meditação, de reflexão e enxergar onde podemos mudar.

A mãe que fomos este ano pode não ter sido a mãe dos comerciais de margarina, mas foi a mãe que acordou no escuro para verificar a febre e que botou o joelho no chão e clamou por algo que era urgente. A profissional pode não ter alcançado todas as metas, mas foi a profissional que aprendeu a negociar prazos com a vida e a respeitar seus limites. A mulher pode não ter feito a viagem dos sonhos, mas foi a mulher que encontrou beleza em um café quente em meio ao caos.
Dezembro não precisa ser o mês da cobrança, mas da colheita afetiva. Colha o que cresceu mesmo nos solos mais áridos: a resiliência, o amor que insistiu, a força que brotou mesmo sem você perceber e as pequenas conquistas.
Antes de escrever as metas do ano novo, escreva uma carta de gratidão para a mulher que você foi em 2025. Agradeça pelos joelhos ralados que continuaram andando, pelo coração cansado que continuou amando, pela mente sobrecarregada que ainda sonhou.
Porque o verdadeiro sentido de “missão cumprida” talvez não esteja no checklist realizado, mas na pessoa que se tornou no processo. Você está aqui. Respirando, sentindo, refazendo, amando. E isso, querida, não é pouco. É tudo.
Que possamos encerrar este ciclo não com o peso do que não foi, mas com o peso leve de quem sabe que, dentro de seus limites e de suas imperfeições, deu seu melhor. E que esse “melhor” seja sempre bom o bastante para você.
































