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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

Não fale com estranhos

Ilustração por Ana Helena Reis

Algumas sombras existem; Outras a gente inventa

Natália percebeu a ausência logo ao acordar.

Não soube dizer exatamente o que faltava — apenas sentiu o vazio.

O quarto estava igual: a veneziana semicerrada, a luz da rua filtrando pelos galhos da árvore, desenhando sombras no teto, o ventilador rodando preguiçoso.

Mesmo assim, algo tinha desaparecido.

Sentou-se na cama, ainda confusa. Durante anos acordara com aquela presença discreta ao lado: um companheiro silencioso que cochichava cautelas, lembrava perigos, puxava-a pelo braço antes de decisões precipitadas.

Agora o quarto estava vazio.

— Estranho — murmurou.

Levantou-se devagar, como quem testa o chão de uma casa onde algo mudou.

Ao sair de casa, Natália levou a mão ao bolso para conferir a carteira.

Parou no meio do gesto. Dessa vez não conferiu.

Era curioso: sempre conferia duas vezes — às vezes três — como se ouvisse aquela voz, advertindo que ela poderia ter sido roubada entre a porta e o portão.

Só ouviu o burburinho das pessoas indo em direção ao ponto de ônibus.

Como sempre, a condução estava lotada.

Ao seu lado alguém fez um comentário inconveniente.

Normalmente ela ficaria em silêncio.

Dessa vez responde.

E nada acontece.

O telefone vibra, com a mensagem do chefe – sem aviso prévio, ele tinha mudado seu compromisso da manhã para outro endereço.

Respondeu de pronto com um emoji de indignação — e nem ouviu aquela voz costumeira: jamais responda ao chefe.

Cada vez mais intrigada com a ausência de seu companheiro, Natália pediu uma informação na rua, pois não conhecia o caminho para esse novo compromisso.

Durante anos a voz teria dito:

— não fale com estranhos.

Mas o homem apenas ajuda.

Algo simples como:

— A estação fica duas quadras para lá.

Nada ameaçador.

No fim do dia, no caminho de volta para casa, Natália percebeu que estava diante da rua que sempre evitara.

Durante anos aquela voz repetira a mesma coisa:

— Não passe por aí.

— É perigoso.

Mas a voz continuava em silêncio.

Então atravessa.

E encontra apenas:

— uma padaria

— crianças brincando

— um senhor regando plantas

Já em casa, sobe as escadas saltando de dois em dois os degraus, como fazia quando criança. O quarto estava igual: a veneziana semicerrada, o ventilador rodando preguiçoso no teto, à sua espera.

 Mas algo havia mudado. Pela veneziana entrava um raio de sol que iluminava o seu lado na cama.  No teto, a sombra dos galhos dançava devagar.

Natália sorriu.

Algumas sombras existem.

Outras a gente inventa.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.
Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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