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Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

Pré-eclâmpsia, tu…

Design Dolce sob imagem por Diversify Lens em Canva

Como pode o fruto do amor cair e desaparecer assim?

Estava eu radiante ao descobrir que no meu ventre crescia o fruto mais lindo de todos os tempos: o fruto do meu amor, a minha estrela Elizabeth. Meu Deus, que felicidade!

Os meses passavam, e o meu brilho aumentava a cada semana. Tu crescias com cada colherada daquele alimento que me fazias desejar com tanta força — a maionese às sete da manhã, o bolo de chocolate daquela tia gentil, os sorvetes e iogurtes… Nossa, a Parmalat certamente recebeu uma fortuna do papá.

Até que, de repente, comecei a inchar como um balão.

Tentei não me assustar. Todos diziam para ficar calma, que era normal pelo peso e pela pressão que fazias no meu útero a cada grama que aumentavas. E eu, acreditava. Mas o medo cresceu quando notei que até as minhas mãos pareciam balões. Ainda assim, insistiam: “É normal, é só retenção de líquidos”.

Design Dolce sob imagem por Murat Deniz em Canva

O meu coração, porém, já não estava tranquilo. Decidi correr ao hospital, sorridente, porque, se Deus me havia enviado a ti, nada de errado poderia acontecer. Como me enganei.

Tudo mudou quando vi o olhar da médica — olhos vermelhos, hesitantes, sem saber como me contar. Por fim, disse-me de uma vez:

— Olha, estás com pré-eclâmpsia. Precisamos fazer uma cesariana agora. As vossas vidas estão em risco.

O quê? Que risco? Pré… o quê?

Enquanto eu tentava entender, as enfermeiras chegaram. Começou o corre-corre: tirar sangue, fazer exames, despir-me, “vamos internar-te”, “deixe o celular com a família”, “depois falamos com eles”, “tens de subir agora”.

Meu Jesus, o que está a acontecer? Nem tempo tive para processar. Mas tudo bem… a doutora disse que, se corressem, tu ficarias bem. Que eu não precisava de me preocupar.

Num piscar de olhos, estava eu anestesiada… e esperançosa.

Nasceste tão pequenina, minha Elizabeth, que nem as incubadoras te conseguiram salvar. Tudo por culpa dessa tal pré-eclâmpsia.

Agora estou aqui, nesta sala fria, a observar outras mulheres com os seus bebés, enquanto eu reprimo a dor que me consome.

Design Dolce sob imagem por sdominick em Canva

Elizabeth, minha filha… a mamãe chora. Por quê?

E sabes o que mais? Descobri que, na verdade, eras o Rei Charles — mas que diferença fazia? Porque é que essa tal eclâmpsia não avisou? A doutora não viu?

E esta dor, meu Deus, o que faço com ela? Como pode o fruto do amor cair e desaparecer assim?

Será que a minha árvore está podre? Ou não recebeu nutrientes suficientes?

Haverá forma de falar com essa tal pré-eclâmpsia?

Meu Deus, por que permitiste que a eclâmpsia entrasse na minha casa?

Hoje encontro-me aqui, com esta cicatriz no baixo ventre… e outra ainda maior no coração.

Rogo a Deus que me guie, porque sozinha não consigo. Dói demasiado.

A vida vai continuar…

Mas maldita sejas, pré-eclâmpsia. Que os ventos te arrastem para os infernos e nunca mais encontres espaço para invadir outro ventre.

Uma prosa em homenagem a todas as mulheres que perderam os seus filhos por causa da pré-eclâmpsia.

Nota do Editor: A pré-eclâmpsia é uma condição séria que afeta algumas gestantes, caracterizada pelo surgimento de hipertensão arterial após a 20ª semana de gestação, ou o agravamento de uma hipertensão já existente

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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