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Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

Filhos meus, um futuro melhor

Design Dolce Morumbi sob imagem em Pexels

Flores que não deveriam murchar: um apelo contra a exploração infantil

Querido leitor, querida leitora, é comum, em diversos pontos do mundo, que pais em circunstâncias de necessidade entreguem os seus filhos a outras famílias, seja como doação ou mesmo para que trabalhem em suas casas, tudo em prol da certeza de garantir um futuro melhor para eles.

Cá em Moçambique não é diferente. Contudo, vende-se a utopia de um futuro melhor para essas crianças, e os pais as enviam com toda esperança e amor. Enviam também meninos, mas há maior predominância no envio de raparigas, algumas com o sonho de ir para a cidade grande — neste caso, Maputo (crianças oriundas das zonas recônditas do país) — para serem babás ou, melhor dizendo, brincar com as crianças dos novos “papás” (que na verdade são patrões) e assim poder continuar os estudos.

Mas isso está longe de ser verdade. As meninas acabam virando babás, o que até não seria problema se, ao menos, obedecessem a um horário normal. Mas não: elas trabalham horas a fio, tornam-se empregadas domésticas e muitas (se não a maioria) mal têm a oportunidade de continuar os estudos. São ameaçadas, quase como se estivessem em cativeiro, o que retira qualquer possibilidade de queixa aos pais biológicos.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

E os meninos, meu Deus! Esses são jogados em quartos de quatro metros quadrados, sendo uns dez ou mais em cada quarto, e no fim são colocados a vender diversas coisas nos semáforos. Se voltam sem um tostão, o seu “papá” patrão os coloca de castigo, chegando ao ponto de não lhes dar o jantar por não terem “merecido”.

Tanto meninos quanto meninas são colocados em situação de vulnerabilidade e perigo. Algumas meninas chegam a iniciar relações sexuais com homens mais velhos ou cedem aos encantos de alguns patrões, após muito assédio, na esperança de obter algum tipo de ganho ou vantagem para enfrentar a sua “mamã” patroa. Outras saem da casa primária sem se despedir, indo se alojar em outros locais sem se preocupar com o amanhã.

Então, a pergunta que não quer calar: vale mesmo a pena enviar ou entregar os nossos filhos a estranhos, ou até mesmo conhecidos, sem qualquer receio? Será biologicamente aceitável que uma mãe, após tanta contração, limite-se a entregar o seu filho em prol de melhores condições sem antes aferir a veracidade do interesse desses novos “papás”?

Até que ponto devemos julgar esses pais? E quanto aos “papás” emprestados, é justo ludibriarem uma família com promessas que já de antemão sabem que não irão cumprir? E quando maltratam essas crianças, será por puro desprezo, caráter sujo ou pura maldade? Porque não acho que faça sentido, tendo ou não filhos, magoar outra criança por estar em situação de vulnerabilidade e necessidade.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

E a sociedade, ao se deparar com essa situação, por que fecha os olhos e finge demência? É falta de empatia, de vontade de se meter nos assuntos alheios? Mas, nesse caso, maus-tratos ainda podem ser considerados algo privado?

Como diria o nosso saudoso Presidente Samora Machel: “As crianças são flores que nunca murcham.” Mas, com tanto mau trato, será que não murcham mesmo? O futuro não será repleto de pessoas com crises existenciais ou até mesmo algum transtorno mental pelo seu passado doloroso?

Caro leitor e cara leitora, estes são apenas pequenos exemplos, mas existem muitos mais. Sinceramente, quero convidar-lhe a refletir, por acreditar que esta situação também acontece em outros lugares, mudando uma ou outra coisa. Mas daí a ser comum e normalizado, existe uma distância gritante. O que importa é que você não faça parte da lista dos destruidores dos sonhos das nossas flores do belo jardim que é o mundo.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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