Existe uma versão da maternidade que vende sonhos. Uma estética de cafés coloridos, casas sempre arrumadas, roupas combinando e sorrisos 24 horas por dia. Mas há outra, mais profunda, menos fotografada e mais real. É a maternidade do “dá pra fazer”. A que não nasce do excesso, mas da escassez transformada em criatividade pura.
Essa semana, eu me olhei no espelho e não aguentei mais o que via. O cabelo gritava por um corte e por uma cor na raiz branca, que me deixa extremamente incomodada, porém meu orçamento sussurrava “ainda não”. Neste momento a solução não estava no salão, mas sim em meio tubo de tintura que ainda tinha aqui, em uma tesoura e em tutoriais da internet.

Minha amiga de verdade naquela hora foi uma youtuber que ensinava a cortar cabelo reto sozinha. O cabelo ficou perfeito? Não. Mas a sensação de ter me resgatado, o empoderamento e o fato de ter feito algo por mim com minhas próprias mãos e com o que eu tinha, foi uma vitória silenciosa e gigante.
Essa é só a ponta do iceberg de uma habilidade que nós, mães, desenvolvemos na marra: a arte de adaptar-se. De transformar o “não dá” em “dá sim, do meu jeito”.
É a habilidade de olhar para a geladeira quase vazia e inventar um jantar que pareça banquete para os olhos dos pequenos. É remendar o uniforme com linha da cor quase certa, na esperança de que ninguém note na escola. É dizer “vamos fazer a noite do pijama”, quando o passeio no shopping está fora de cogitação. É brincar de faz de conta, em vez de comprar brinquedo novo.

E sim, é também escolher não comer. É ver a última fruta, o último pedaço de pão, o último copo de leite, e dizer “não estou com fome agora”, com um sorriso, só para ter a certeza de que eles estão satisfeitos. É um cálculo de amor que não entra na matemática financeira. É uma pequena abdicação diária que dói no estômago, mas aquece o coração de uma forma inexplicável. Quantas de nós não vive isso diariamente?
Essas não são histórias trágicas. São histórias de potência. Porque nesses momentos, não somos consumidoras. Somos criadoras. Somos alquimistas, transformando o pouco em suficiente, a falta em inventividade, o limite em união.
Enquanto o mundo prega a ideia de que amor se mede pelo que se pode comprar, nós escrevemos um manual secreto onde amor se mede pelo que se pode transformar, improvisar e doar.

A maternidade real raramente tem o filtro dourado das redes sociais. Ela tem o brilho do suor, a textura da massa de bolo caseiro, o cheiro do pão que acabou e a esperança do que virá amanhã. Ela é feita de pequenos atos heroicos não reconhecidos, que constroem a segurança mais valiosa que uma criança pode ter: a de saber que o lar é um lugar de soluções, não apenas de “coisas”.
Então, se hoje você está cortando o próprio cabelo, reinventando a refeição ou adiando um desejo seu para priorizar um deles, quero que você saiba: você não está passando aperto. Você está orquestrando um milagre cotidiano.

Você está ensinando, no silêncio dessas ações, a lição mais valiosa: a de que somos mais fortes do que as circunstâncias. E que o amor, no fim das contas, é o maior e mais criativo recurso que temos.
É dessa matéria-prima, feita de coragem, criatividade e um cansaço que se transforma em força, que são feitas as mães verdadeiras. As que, mesmo quando o mundo diz “não”, encontram uma maneira de dizer “vamos lá”.
E seguimos.






























