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O filtro de Narciso

Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial

A transformação da sabedoria clássica para o vazio digital

Por Paulo Maia

Caro leitor e querida leitora, ora vejamos!

Vivemos tempos de uma curiosa inversão. Na Roma Antiga, o auge da glória de um general era o seu “Triunfo”, um desfile suntuoso pelas ruas de mármore. Contudo, atrás do vitorioso, um escravo tinha a missão de segurar uma coroa de louros e sussurrar uma frase que atravessaria milênios: “Respice post te! Hominem te esse memento!” (Olhe para trás! Lembra-te de que és apenas um homem!). Era o freio necessário para que a vaidade não o transformasse em um deus efêmero.

Hoje, em nossas vitrines digitais, dispensamos o escravo e o sussurro. Em seu lugar, temos o grito constante das notificações, que sopra em nosso ouvido exatamente o oposto: que somos o centro, que somos eternos, que a nossa imagem é o que mais importa.

Somos, hoje, curadores do vazio com nossas postagens de imagens que buscam o esplêndido, justamente para cobrir o nada que nossa vaidade aponta.

A etimologia da palavra vaidade vem do latim vanitas, que significa, literalmente, “vazio”. Não é por acaso que, na Idade Média, Santo Agostinho a incluiu na lista dos pecados que mais afastam o homem de sua essência. A vaidade não é apenas o excesso de autoestima; é o amor por um reflexo que não possui substância.

No século XVII, o movimento Barroco imortalizou essa ideia com pinturas de naturezas-mortas que exibiam crânios e ampulhetas ao lado de joias e flores. A mensagem era clara: a beleza é transitória. Hoje, nossas redes sociais são as galerias barrocas modernas. Cada foto é uma tentativa de congelar o tempo, uma Vanitas com filtro Nashville, onde buscamos a aprovação de uma plateia invisível para preencher um vazio que, ironicamente, a própria exposição cria.

Estátua do Imperador Romano Caio Júlio César em Roma, Itália
Imagem em Canva

O mito de Narciso, eternizado por Ovídio, nunca foi tão atual. Narciso não morreu por amar a si mesmo, mas por se encantar com uma projeção que ele não conseguia tocar. O smartphone tornou-se o nosso lago de bolso. Diferente do lago grego, o nosso é interativo e viciante. Ele não apenas reflete quem somos, mas quem gostaríamos de ser. O problema é que, ao buscarmos incessantemente o ângulo perfeito, muitas vezes deixamos de viver o momento real. A experiência torna-se o subproduto do registro.

Mas, claro, nossa vaidade não nasce com as redes sociais, imagina! Tenho para mim que ela é parte da nossa estrutura psicológica e um dos pilares da consciência da experiência da vida. A tecnologia apenas ampliou as possibilidades e o alcance de nosso desejo incontrolável pela aceitação do outro — e de nós mesmos.

Não por acaso, escrevo este artigo em uma coluna chamada La Dolce Vita, mas esse título jamais buscou fazer alusão a pixels digitais que celebram uma vida que só vive em nosso desmedido ego. Ele é, em minha concepção, justamente a ironia do doce amargo que a experiência da vida nos traz.

Relembre também, caro leitor e querida leitora, o filme de Fellini (que tem o mesmo nome da coluna): a vida do jornalista Marcello Rubini, que, buscando sucesso e prazer em uma sociedade decadente, encontra apenas a falta de sentido, banhada em tédio e vazio.

Pintura de Narciso de Caravaggio, retratando Narciso contemplando a água após se apaixonar por seu próprio reflexo.
Caravaggio, circa 1600 , Public domain, via Wikimedia Commons

Quando nos elegemos a melhor coisa que existe na vida, deixamos de experimentar e sentir o que nos faz vivos, de fato. E essa experiência, fatalmente, deixará de ser sentida um dia. Deixamos de lado o fato indubitável de que ela é absoluta e única, e que nenhuma outra, vivida por outrem, saberá como realmente foi.

Se a vaidade é o vazio, a verdadeira “Doce Vida” deve ser o preenchimento. Lidar com a vaidade não significa abdicar do autocuidado ou da celebração das conquistas, mas sim resgatar a lucidez do Memento Mori (que significa justamente: “lembra-te de que morrerás”).

A sofisticação autêntica, aquela que você, caro leitor e querida leitora, tanto aprecia, reside na capacidade de estar presente. É o prazer de um jantar em que os celulares permanecem na bolsa; é o luxo de uma viagem que não vira álbum público em tempo real; é a elegância de saber que, embora sejamos humanos e finitos, a nossa história tem muito mais valor quando é vivida do que quando é meramente assistida. No fim das contas, a vida mais doce é aquela que não precisa de filtros para ser sentida.

Será este último parágrafo meu confesso mal-estar, um desejo oriundo de um romantismo carregado de nostalgia do meu ego? Talvez. Deixo a você, amigo leitor e amiga leitora, julgar por si!

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo


Paulo Maia é publicitário formado em Comunicação Social, editor do Portal Dolce Morumbi®, atua há mais de 30 anos como profissional de comunicação e marketing e autor de “Entre o silêncio e o sorriso: palavras de um certo lugar no tempo”.
Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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