Por Paulo Maia
Caro leitor e querida leitora, por que a genialidade não pode ser ensinada?
Há algo na genialidade humana que escapa a qualquer manual. É como uma chama que arde sem que o próprio portador saiba explicar de onde vem ou como mantê-la acesa. O músico que improvisa sem partitura, o pintor que mistura cores sem jamais ter aprendido a teoria, o cientista que enxerga soluções antes mesmo de formular a pergunta — todos eles carregam um dom que não se transmite, apenas se revela.
Vivemos, porém, na era da “gourmetização do talento”, onde nos vendem a ilusão de que a genialidade pode ser fatiada em dez passos e empacotada em um curso de final de semana. Mas o gênio é, por definição, um erro proposital no sistema; ele é o que sobra quando a técnica cansa e a alma assume o comando.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva
É nesse território misterioso, entre intuição e temperamento, que a vida nos lembra que nem tudo pode ser ensinado. Há talentos que pertencem apenas ao instante em que se manifestam. Malcolm Gladwell, em Blink – A Decisão Num Piscar de Olhos (Blink: The Power of Thinking Without Thinking, 2005), nos mostra que a intuição não é mágica, mas fruto de um repertório invisível que acumulamos ao longo da vida. Decidimos em segundos porque carregamos um arquivo vivo de experiências, capaz de reconhecer padrões antes da razão.
Contudo, se Gladwell decifra a mecânica da intuição, ele ainda silencia sobre o seu mistério: ter o repertório é ciência; saber o momento exato de ignorá-lo para criar o inédito é o que separa o perito do mestre.
O artista que responde “eu apenas faço” não está escondendo um segredo de estado, mas revelando que sua genialidade habita um território onde a linguagem não alcança. E é justamente esse silêncio que nos incomoda e fascina. Em um mundo que idolatra metodologias, dados e previsibilidade, o gênio é uma afronta. Ele é o irreproduzível em um mundo de cópias.

Um gênio é aquele que não se enquadra em qualquer explicação razoável. Ele produz o original e, justamente por não se encaixar em nada preconcebido, recebe o título de gênio — não porque alguém o definiu por mérito, mas porque não conseguimos domesticá-lo com um rótulo. A genialidade é o território do indomável, do que não se repete, do que não se ensina.
O verdadeiro gênio é aquele que escapa a qualquer rótulo — cria o que nunca existiu antes e não sabe explicar como. Nem tudo pode ser ensinado. Algumas escolhas vêm de dentro, antes mesmo de serem pensadas.
Caro leitor, querida leitora, talvez essa centelha, tão rara e tão humana, seja o nosso último refúgio contra a automação da vida. Ela nos lembra que a existência, em sua essência, não é feita de fórmulas matemáticas, mas de instantes únicos que só existem porque, em algum momento, alguém ousou ser magnificamente incompreensível.





























