Em Delírios de um Passado Aberto, o editor do Portal Dolce Morumbi®, Paulo Maia nos convida a uma incursão labiríntica pela mente de Lucas DeCastro, um professor de Ciências Sociais cuja erudição não o protege da emboscada mais traiçoeira de todas: a própria memória. Escrito originalmente em meados de 1988, o conto ressoa hoje com uma atualidade surpreendente, questionando a fronteira entre o que vivemos e o que narramos para nós mesmos.
Da coxia para a literatura
Um dos aspectos mais fascinantes deste texto é sua origem: concebido inicialmente como um argumento teatral, a narrativa carrega em seu DNA o vigor dos palcos. Embora tenha sido preservada por décadas antes de chegar ao formato literário, a estrutura mantém a urgência dramática. O apartamento de Lucas funciona como um cenário fixo onde o tempo é fluido; as personagens não apenas surgem na memória, elas “entram em cena”, ocupando o espaço com uma fisicalidade que só o olhar de quem escreve para o teatro consegue conceber.

A arquitetura da alucinação
O texto não se contenta em ser um relato linear. Ele se estrutura como uma personificação de memórias, onde figuras do passado — a passional Cecília, a fiel Regina e o amigo Joel — reivindicam diálogos não concluídos. Maia utiliza o fenômeno da alucinação como uma ferramenta metafórica: o passado de Lucas está tão “aberto” que sangra para dentro do presente, transformando a leitura em uma experiência quase cinematográfica de “flashbacks” vivos.
Temas centrais e contrapontos
O romance oscila habilmente entre dois polos:
O sagrado e o profano: a inclusão da sombria “Seita Imaga” traz uma camada de crítica social e horror psicológico, contrastando a busca intelectual de Lucas com o irracionalismo e o perigo dos dogmas.
A presença de Joana: a personagem Joana funciona como a âncora de realidade. Enquanto Lucas flutua em seus delírios de capa vermelha, Joana oferece o chá e a sabedoria prática. Ela é o lembrete de que a sobrevivência reside na aceitação do cotidiano.

Uma cápsula do tempo
Delírios de um Passado Aberto é, acima de tudo, uma obra sobre a reconstrução da identidade. O fato de ter sido guardada por tanto tempo apenas reforça sua mensagem: a de que certas histórias precisam de tempo para amadurecer antes de serem contadas. É um convite ao leitor para olhar para as suas próprias “estantes de memórias” e decidir quais fantasmas merecem um adeus e quais lições merecem ser transformadas em vida nova. Um romance essencial para quem busca na literatura um espelho da alma.

A seguir, uma entrevista com o autor:
É verdade que este texto nasceu para ser uma peça de teatro? Por que ele ficou guardado por tanto tempo?
Sim! Em 1988, eu vivia intensamente o ambiente teatral e escrevi essa história pensando nos palcos. O projeto com o grupo não avançou, mas a essência do texto ficou comigo. Guardei esses manuscritos por décadas como um segredo particular. Acho que o “agora” aconteceu porque vivemos uma era de muita superficialidade, e senti que aquele mergulho profundo na consciência humana, que eu rascunhei anos atrás, finalmente encontrou o seu momento. Ele deixou de ser um ensaio teatral para se tornar um testamento literário.
O texto foi escrito em meados de 1988, mas trata de temas que parecem atemporais. Por que decidir lançá-lo ou revisitá-lo agora?
A alma humana não envelhece da mesma forma que o calendário. Em 1988, eu queria explorar como nossas paixões e nossa razão moldam nossa história. Hoje, percebo que essa busca por “manter-se leve e profundo”, como o personagem Lucas, é um desejo ainda mais urgente em um mundo tão barulhento e imediato. O passado nunca está “fechado”; ele é um diálogo constante com quem somos hoje.
Lucas DeCastro é um professor de Ciências Sociais. Por que essa escolha profissional para o protagonista?
Lucas é um homem que passou a vida analisando a sociedade, as estruturas e o comportamento humano através da lógica acadêmica. Colocá-lo em um cenário onde a razão falha e as alucinações assumem o controle cria um conflito fascinante. É o momento em que o “observador do mundo” é forçado a observar a si mesmo, sem as defesas das teorias sociológicas.
O título fala em “Delírios”. Onde termina a realidade e começa a alucinação no romance?
Essa é a provocação central. Para Lucas, Cecília e Regina são reais enquanto estão na sala. As sensações são, como diz o texto, “honestas e intensas”. O livro sugere que a realidade é subjetiva: se uma memória dói ou traz alegria no presente, ela é um fato emocional tão real quanto qualquer outro.
A Seita Imaga e a figura de Peter Vans trazem um tom sombrio à obra. Qual o papel desse núcleo na história?
A Seita representa o perigo de entregar a própria vontade a crenças externas quando estamos vulneráveis. Enquanto Lucas luta com seus fantasmas internos, a Imaga tenta escravizar o espírito através de rituais. É o contraponto entre o “delírio” poético da memória e o “delírio” perigoso do fanatismo.
Joana Rekien é uma presença constante e silenciosa. Ela é a verdadeira força da narrativa?
Com certeza! Joana é a “âncora”. Enquanto Lucas viaja pelas páginas amareladas do passado, é ela quem serve o chá e lembra da necessidade de comprar o mel. Ela representa a sobrevivência, a sabedoria de quem aceita a vida como ela é, sem precisar de grandes discursos ou alucinações para encontrar sentido.
O que você espera que o leitor sinta ao fechar o livro após o último suspiro de Lucas?
Espero que o leitor sinta um alívio reflexivo. Que ele olhe para sua própria trajetória e perceba que, embora o passado possa ter capítulos dolorosos ou mal resolvidos, a “janela” para o futuro sempre pode ser aberta com um sorriso. A vida é, afinal, o próximo espetáculo.

Delírios de Um Passado Aberto
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Paulo Maia é publicitário e editor do Portal Dolce Morumbi®. Há mais de 30 anos atua como profissional de comunicação e marketing, desenvolvendo projetos editoriais e estratégias criativas. Em Delírios de Um Passado Aberto, escrito em meados de 1988, Paulo revela sua faceta literária, explorando os limites da memória, da consciência e da imaginação em uma narrativa que mistura poesia, filosofia e crítica social. É também autor de “Entre o silêncio e o sorriso: palavras de um certo lugar no tempo“, um mosaico de ideias e sentimentos com textos que convidam a refletir sobre o humano e suas contradições.





























