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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

Quando o algoritmo falha

Ilustração em guache branco sobre papel Canson preto por Ana Helena Reis

Dizem que, com duas ou três perguntas certas, dá para entender quase qualquer pessoa

Dizem que, com duas ou três perguntas certas, dá para entender quase qualquer pessoa. 

E se bastasse uma?

Numa conversa dessas que começam em qualquer assunto e terminam em nenhum, alguém lançou a pergunta:

— Você é mais gato ou cachorro?

A mesa se dividiu rápido. Teve quem respondeu sem pensar, quase ofendido com a dúvida. Teve quem hesitou, como se estivesse prestes a revelar um traço de caráter.

Achei curioso.

Porque, no fundo, ninguém ali falou de bicho nenhum.

Os “cachorros” eram fáceis de reconhecer. Chegam perto. Encostam. Confiam antes mesmo de saber. São de riso aberto, de presença inteira, de lealdade quase automática — dessas que às vezes atropelam o próprio bom senso.

Os “gatos” não. Esses medem a distância. Observam antes de se oferecer. Têm um certo gosto pelo silêncio, pela independência, pelo território próprio. Aproximam-se quando querem — e isso, curiosamente, faz com que a aproximação valha mais.

Não precisou de teste, nem de algoritmo, nem de análise profunda. Bastava a pergunta.

Simples assim.

Ou quase.

Porque, no meio da mesa, alguém — talvez mais honesto que o resto — disse:

— Eu acho que sou os dois.

E aí complicou.

Fiquei lembrando de CatDog, aquele desenho antigo: um corpo só, duas naturezas incompatíveis tentando coexistir. Um puxando pra um lado, o outro pro oposto. Um querendo festa, o outro querendo silêncio.

Talvez seja isso.

No fim das contas, a gente não escolhe entre gato e cachorro.

A gente negocia.

Todos os dias.

Entre o impulso de chegar abanando a vida e a vontade de desaparecer sem dar explicação.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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