Por Paulo Maia
Olá, caro leitor e querida leitora!
Você se considera supersticioso? Supersticiosa?
Hoje, convido-os a uma breve pausa. Antes de avançarmos, peço que olhe ao seu redor. Vivemos hoje mergulhados em um oceano de certezas estatísticas; somos cercados por uma malha de algoritmos que prometem prever desde o nosso próximo consumo até o clima da próxima década. No entanto, o mesmo sujeito que opera satélites e inteligências artificiais ainda hesita antes de cruzar o caminho de um gato preto ou golpeia a madeira para afastar o infortúnio. O que há nessa “razão que pede licença”, como se houvesse uma fresta no real por onde o destino pudesse nos espiar?
Veja bem, caro leitor e leitora: a superstição, analisada sob uma lente mais austera, revela-se menos como ignorância e mais como uma profunda estratégia de equilíbrio. Como sugeriu o filósofo Baruch Spinoza (1632-1677) em seu Tratado Teológico-Político, se os homens pudessem governar todas as suas circunstâncias por um plano fixo, jamais seriam vítimas da superstição. É a flutuação incessante entre o medo e a esperança que nos torna crédulos. O rito não é uma tentativa vã de mudar a física do mundo, mas uma ferramenta eficaz para estabilizar a química da mente.

Na La Dolce Vita, devemos sempre buscar a harmonia e a sinceridade em nossas reflexões, despindo-nos das máscaras da autossuficiência. Por isso, olhemos para os nossos pequenos cacoetes cotidianos: o sinal da cruz feito por mãos que raramente tocam um altar, o pé direito que busca o asfalto primeiro ao sair de casa, ou aquele trajeto repetido ao trabalho após um sucesso profissional anterior.
A superstição é a geometria que tentamos impor ao caos. O antropólogo Bronisław Malinowski (1884-1942) observou algo fundamental entre os pescadores das Ilhas Trobriand: eles não usavam ritos para pescar na lagoa tranquila, onde o controle era total. No entanto, enchiam-se de magias e preces ao enfrentar o oceano aberto. A superstição nasce exatamente onde a técnica termina e a incerteza começa. Ela é o suplemento simbólico da nossa impotência técnica.
Ao tomarmos distância desse comportamento para observá-lo com objetividade, notamos que o gesto de “bater na madeira” fala pouco sobre as forças ocultas da natureza e muito sobre a nossa arquitetura interna. Sigmund Freud (1856-1939) talvez visse nisso uma projeção de desejos reprimidos ou culpas ancestrais, mas prefiro olhar por um prisma mais solar.

Talvez a superstição seja o último reduto da nossa humildade diante do vasto universo. Ao cruzar os dedos, o homem admite — ainda que em silêncio — que não é o senhor absoluto do seu destino. Há uma beleza melancólica nesse reconhecimento: somos seres que, para suportar a crueza do fato, precisam da leveza do símbolo.
Na busca por uma existência com mais significado, aceitar que o rito é o ensaio da nossa própria coragem nos torna, paradoxalmente, mais íntegros. A superstição não é o oposto da razão; é o corrimão que a razão segura quando o degrau do amanhã parece escuro demais.
Fica a questão, aberta e suspensa para a sua reflexão: seríamos nós capazes de viver em um mundo puramente lógico, desprovido de nossos pequenos altares invisíveis? Ou seriam esses gestos, ironicamente, o que nos mantém sãos em um mundo que não nos dá garantias?






























