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A elegância da indiferença: o luxo de não ter opinião

Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

O recuo e a curadoria da própria atenção são as novas fronteiras da distinção e da saúde mental

Por Paulo Maia

Caro leitor e querida leitora, espero que este texto os encontre em um momento de paz — ou, ao menos, em um breve intervalo do barulho do mundo.

Já sentiu como se estivéssemos todos em uma espécie de tribunal perpétuo, onde somos intimados a dar um veredito sobre cada polêmica, cada gesto alheio e cada “urgência” que brota na tela do celular? Pois hoje, gostaria de propor uma ideia que pode parecer estranha, mas que carrega uma elegância rara: a virtude de não ter uma opinião.

Veja bem, vivemos uma inflação do julgamento. Parece que o silêncio diante do irrelevante tornou-se um pecado social. No entanto, a verdadeira distinção hoje não reside em quem fala mais alto, mas em quem sabe o que ignorar. Essa “indiferença selecionada” não é apatia ou falta de empatia; é, antes de tudo, uma curadoria da alma. É o entendimento de que a nossa atenção é o recurso mais sagrado que possuímos e que desperdiçá-la com o efêmero é uma forma de autossabotagem.

A natureza humana tem sido debatida há séculos por mentes brilhantes e inquietas, por isso precisamos olhar para trás e dar o crédito a quem já mapeou esse terreno. Os estoicos, há mais de dois mil anos, já nos alertavam sobre essa economia do espírito. Sêneca, em suas cartas, insistia que o homem sábio não se deixa arrastar pelo tumulto da multidão. Para ele, a paz interior dependia da capacidade de distinguir o que nos pertence do que pertence ao mundo. Se algo não depende de sua ação direta ou não afeta a sua integridade ética, por que dar a isso o poder de perturbar sua harmonia?

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Nessa mesma trilha, precisamos “visitar” a famosa “torre” de Michel de Montaigne. Localizada no Château de Montaigne, na região do Périgord, sudoeste da França, foi lá que o pensador francês se retirou para escrever os seus famosos Ensaios. Nesta obra, ele nos presenteou com a metáfora da “arrière-boutique” — a nossa “loja de fundos”. Montaigne defendia que, embora devamos cumprir nossos papéis na sociedade, devemos manter um espaço interior totalmente nosso, uma reserva de liberdade onde o julgamento alheio não tem jurisdição. O elogio ao recolhimento, para ele, não era um isolamento do mundo, mas uma proteção contra a tirania das opiniões públicas. Ao praticarmos a indiferença selecionada, estamos, na verdade, garantindo que o acesso à nossa “loja de fundos” seja restrito apenas ao que realmente importa.

Aliás, apenas uma anotação. Montaigne abre a obra com um parágrafo arrebatador (em minha modesta opinião) para o leitor:

“Eis aqui, leitor, um livro de boa-fé. Adverte-o ele de início que só o escrevi para mim mesmo, e alguns íntimos, sem me preocupar com o interesse que poderia ter para ti, nem pesar na posteridade…”, e finaliza com “Assim, leitor, sou eu mesmo a matéria deste livro, o que será talvez razão suficiente para que não empregues teus lazeres em assunto tão fútil e de tão mínima importância”.

Imagine tamanho desprendimento em pleno século XVI! O pensador francês já adiantava que a opinião do leitor, caso a tivesse após a leitura, não tinha a menor relevância. E mais, sabia que o estilo de escrita intitulado “ensaio” foi cunhado a partir de sua obra? Curiosidades.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Mas, retomando meu ponto de vista, dando um salto de volta ao nosso tão egocêntrico século XXI.

Na prática social moderna, a pressão para “ter um lado” ou “dar um palpite” é uma forma de invasão de privacidade intelectual. Quando decidimos não participar do tribunal das redes sociais ou das fofocas de ocasião, preservamos a nossa capacidade de sermos sinceramente empáticos quando o momento realmente exige. Quem opina sobre tudo, raramente sente algo com profundidade. A elegância da indiferença é, portanto, um exercício de economia emocional.

Chegamos, então, ao ponto em que a teoria encontra a nossa rotina. Se a modernidade é esse banquete indigesto de informações, a elegância da indiferença selecionada é o nosso filtro de sobriedade. Ao escolhermos o que não merece nossa voz, estamos, na verdade, dando muito mais valor ao que decidimos dizer. Afinal, a palavra de quem opina sobre tudo acaba por não ter peso sobre nada.

O convite que deixo a você, caro leitor e querida leitora, é um exercício de liberdade: resgatar o prazer de Montaigne em sua torre, sabendo que o mundo continuará girando — com ou sem o nosso palpite.

Por isso, deixo uma provocação prática para você: qual foi a última coisa que você escolheu não saber?

Qual foi a polêmica ou a “urgência” digital que você simplesmente deixou passar, sem dar a ela o luxo da sua atenção?

Experimente esse silêncio e descobrirá que, ao se tornar “indiferente” ao irrelevante, você se torna infinitamente mais presente para o que é essencial. Afinal, a harmonia da alma não se encontra no ruído das multidões, mas na clareza de quem sabe exatamente o que não deve ser convidado para entrar.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo


Paulo Maia é publicitário, editor do Portal Dolce Morumbi® e há mais de 30 anos atua como profissional de comunicação e marketing.
Autor de
“Entre o silêncio e o sorriso: palavras de um certo lugar no tempo”, ”Delírios de Um Passado Aberto” e ”Nada Além da Paisagem”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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