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A dignidade no escuro

Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

Um convite à reflexão sobre o valor invisível das nossas escolhas cotidianas e a beleza do convívio civilizado

Por Paulo Maia

Caro leitor e querida leitora, convido-os hoje a um breve exercício de observação sobre a nossa rotina.

Quando navegamos pelas redes sociais ou acompanhamos o vaivém da vida pública, frequentemente nos deparamos com uma torrente de exposições, discursos e comportamentos que nos saltam aos olhos. Longe de querer ditar o que é certo ou errado — afinal, não pretendo ser régua para o comportamento de ninguém —, proponho que façamos uma pergunta íntima ao testemunharmos essas cenas: o que move essas ações? Estamos diante da busca por uma relevância real ou apenas assistindo ao desejo humano de alimentar a própria vaidade através de um marketing pessoal efêmero?

A partir dessa inquietação, gostaria de fazer um convite para refletirmos juntos sobre um conceito que anda meio esquecido, ou ao qual temos dado pouca atenção em nós mesmos: a dignidade. O que significa, afinal, ser uma pessoa digna? Muito além dos palcos digitais ou das grandes tribunas, a dignidade opera no silêncio. Há um pacto silencioso com a própria alma. Significa a escolha por uma existência que mantém a cabeça erguida, encarando a vida com coragem, sabedoria e uma honestidade profunda consigo e com os outros, especialmente quando os dias se tornam difíceis ou cinzentos.

Imagem e montagem feita com ferramentas de inteligência artificial.

Essa postura vai muito além das atividades na internet. A dignidade se manifesta na textura do cotidiano, nas miudezas invisíveis que ninguém está filmando — como o ato simples e acolhedor de oferecer um copo de água para um visitante em nossa casa. É uma escolha de existência voltada para o convívio civilizado e edificante. O pensador Yuval Noah Harari, em sua obra Sapiens, nos lembra de que a grande virada da nossa espécie na natureza hostil foi a capacidade única de colaborar em larga escala entre estranhos. Essa colaboração mútua só se sustenta se houver um lastro invisível de respeito e integridade entre nós. A dignidade, portanto, não é um enfeite; é a base da nossa sobrevivência em sociedade.

Mas como preservar essa força quando as nossas próprias estruturas balançam? O psiquiatra austríaco Viktor Frankl, que enfrentou situações limites de extrema degradação nos campos de concentração, escreveu que podem nos tirar tudo, menos a última das liberdades humanas: a escolha da atitude que tomaremos diante das adversidades. Manter a postura na pior das tormentas é uma afirmação de que a nossa essência não está à venda e não se deixa corromper pelas circunstâncias.

O filósofo Immanuel Kant definia que, no mundo, tudo tem um preço ou uma dignidade. O que tem um preço pode ser substituído por um equivalente comercial; mas o que está acima de qualquer preço, o que não admite equivalente, isso sim possui dignidade. Por isso, quando transformamos a nossa integridade em moeda de troca para obter aprovação ou aplausos, esvaziamos seu valor real.

Imagem de krakenimages.com no Magnific

A dignidade não tolera o holofote da soberba. Buscar ser digno e ficar anunciando isso por aí é cair em uma contradição narcisística. Ela se mostra puramente na ação e na forma como a encaramos. Não se trata de agir para os outros verem, mas de construir um comportamento que permita um convívio sadio em sociedade. O que entregamos ao mundo deve ser a consequência natural de quem somos no escuro, quando ninguém está olhando.

No grande teatro da existência, a verdadeira La Dolce Vita talvez pertença àqueles que compreendem que a paz de espírito não nasce do aplauso da plateia, mas do alinhamento silencioso com a própria consciência.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo


Paulo Maia é publicitário, editor do Portal Dolce Morumbi® e há mais de 30 anos atua como profissional de comunicação e marketing.
Autor de
“Entre o silêncio e o sorriso: palavras de um certo lugar no tempo”, ”Delírios de Um Passado Aberto” e ”Nada Além da Paisagem”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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