Por Paulo Maia
O escritório da corretora de seguros de Arthur cheirava a café fresco e papel impresso. Nas paredes, quadros com molduras sóbrias exibiam as certificações de décadas de serviços prestados. Arthur passara os últimos trinta e cinco anos de sua vida lendo letras miúdas. Ele era um especialista em prever o pior. Sabia calcular o preço exato da invalidez, o valor de resgate de uma ausência abrupta e a taxa de juros necessária para que uma viúva não perdesse o padrão de vida. Ele vendia segurança. Vendia a ilusão de que o amanhã, se viesse quebrado, poderia ser consertado com uma indenização justa.
Aos sessenta anos, no entanto, Arthur olhava para a apólice da própria existência e percebia que o prêmio final era apenas o silêncio de uma casa confortável.
Ele não tinha do que reclamar, e a culpa por não ter do que reclamar era a sua maior tortura. Seu casamento com Helena já somava trinta e seis anos de uma calmaria inabalável. Nunca houve um prato quebrado, uma mala arrumada no meio da noite ou uma suspeita de traição. Os desentendimentos conjugais eram resolvidos com a mesma polidez de uma assembleia de condomínio. Os três filhos — o homem de trinta e quatro, as moças de trinta e dois e vinte e oito — com educação exemplar, bem-sucedidos e já lhe haviam garantido cinco netos saudáveis. Seus amigos eram os mesmos desde a faculdade de Administração; casais que compartilhavam jantares de sábado, apadrinhavam batizados e cultivavam uma moralidade impecável.
Arthur era o cidadão modelo. O homem com todas as qualidades que a sua classe social exigia. Ele havia decorado o roteiro burguês na adolescência e o encenara com maestria. Mas, ao ensaiar a entrega do comando da corretora para o filho mais velho, o vazio se instalou.
Não havia prêmio.

Ele esperara, lá no fundo, que ao final de todas as parcelas pagas de honestidade, trabalho e fidelidade, receberia um certificado de júbilo. Um sentimento avassalador de que valera a pena. Em vez disso, encontrou apenas o eco de seus próprios passos na sala de estar.
“É só isso?”, ele se perguntava diante do espelho, enquanto ajeitava o nó da gravata.
Procurou um terapeuta. O homem de óculos e fala mansa passou três sessões tentando escavar a infância de Arthur atrás de um abuso, de uma rejeição paterna, de um trauma recalcado. Arthur cansou-se rapidamente. Sua dor não era um hematoma do passado; era a ausência de futuro. A psicologia tradicional procurava uma ferida onde havia apenas uma folha em branco. Sua angústia não era clínica, era metafísica.
Mas a experiência da terapia não foi verdadeiramente inútil. Por conta de sugestões do homem de óculos, passou a ler com mais frequência, particularmente clássicos e alguns livros de iniciação à filosofia.
De repente, passou a ter outros comportamentos e atitudes. Deixou crescer uma curiosidade em observar e conhecer pessoas diferentes. Dele, pelo menos. Mas ele não queria ser o Arthur nesta jornada. Queria ir como um alguém qualquer.
Inventava, para a família, reuniões de negócios fora de São Paulo para passar as noites em bares escuros e boates adultas de estética underground. Sempre sozinho, sentava-se ao balcão, pedia uma bebida e observava. Não buscava sexo, não buscava o pecado ou alguma aventura. Adrenalina não era exatamente o que lhe faltava. Buscava realizar o desejo de ser ninguém. Naquelas salas esfumaçadas, onde corpos desconhecidos se roçavam sob luzes de neon vermelho, ele não era o “vovô Arthur”, o “chefe” ou o “marido exemplar”. Ele era um estranho sem qualidades. E a invisibilidade era o mais próximo que ele chegava da paz.
Até que, em um domingo comum, após o almoço de família com o tradicional frango assado e a gritaria dos netos na varanda, Arthur pediu que todos se sentassem na sala.
A voz dele não tremeu. Ele explicou a Helena, aos filhos e aos genros que estava se mudando para uma cidade pequena no interior do estado. Sozinho.
— Existe outra pessoa, pai? — perguntou a filha mais velha, com os olhos já marejados.
— Não — respondeu Arthur, com a calma cirúrgica de quem explica o cancelamento de um contrato. — Não há outra mulher. Há apenas o outro eu que eu nunca deixei nascer.
Explicou os termos de sua retirada. Passaria a corretora para o filho definitivamente. Passaria o novo endereço a todos por mensagem. Eles poderiam visitá-lo quando quisessem, sem necessidade de aviso prévio. Mas deixou claro: ele não voltaria para visitá-los.

A reação da família oscilou entre a devastação silenciosa de Helena, que parecia tentar ler uma cláusula de exclusão invisível no rosto do marido, e o julgamento mudo dos filhos, que secretamente começavam a cogitar o início de uma demência senil. Mas a decisão de Arthur era irrevogável.
Duas semanas depois, ele estava sentado na varanda de uma casa simples, cuja pintura descascava sob o sol da tarde de uma cidade que ele mal conhecia. O vento mexia nas folhas de uma mangueira no quintal. Arthur não tinha relógio no pulso, não tinha reuniões agendadas, não tinha que garantir o futuro financeiro de ninguém pelos próximos dez anos.
Mergulhado em alguns pensamentos, ele se olhou de fora. Sabia que, para os amigos de trinta anos e para a sociedade que o moldara, ele havia enlouquecido. Mas, ao fechar os olhos e respirar o ar puro daquela tarde vazia de roteiros, Arthur sentiu, pela primeira vez na vida, um leve e terrível vislumbre de júbilo.
Não porque havia vencido o jogo. Mas porque finalmente decidira parar de jogar.





























