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Africanamente Dolce

Erica Paiva

Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

Do albinismo à bruxaria

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Em muitos países africanos, incluindo Moçambique, as pessoas com albinismo despertam curiosidade e admiração, mas também medo, rejeição e violência

O albinismo é uma condição que, pelo menos aqui, na África, continua envolta em crenças complexas, mitos e preconceitos profundamente enraizados. Infelizmente, para muitos, ainda é visto através da lente do obscurantismo e não da ciência.

Mas, afinal, o que é o albinismo?

Cientificamente, o albinismo é uma condição genética hereditária caracterizada pela produção reduzida ou inexistente de melanina, o pigmento responsável pela cor da pele, dos olhos e do cabelo. Não é uma maldição, não é fruto de feitiçaria, nem resulta de misturas de plantas, raízes ou qualquer prática mística.

E por que escolhi escrever sobre este tema? Porque, para mim, não é apenas um assunto. É uma realidade. Tenho filhos albinos.

Contudo, mais do que falar da minha história, quero dar voz a uma verdade que ainda é pouco discutida.

Em muitos países africanos, incluindo Moçambique, as pessoas com albinismo despertam curiosidade e admiração, mas também medo, rejeição e violência. Há quem acredite que os seus ossos curam doenças, que o seu coração concede longevidade ou que partes do seu corpo atraem riqueza e prosperidade. São crenças cruéis, desumanas e sem qualquer fundamento.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Mas pergunto: tudo aquilo que não compreendemos merece ser condenado?

Se o albinismo é uma condição genética, então eu, enquanto mãe, seria o centro dessa suposta bruxaria? O meu ovário seria um búzio? O meu útero uma capulana saída da cabana de um feiticeiro? As minhas entranhas seriam os antepassados disfarçados?

Percebem o absurdo?

É doloroso saber que ainda existem pais que ensinam aos filhos que uma pessoa com albinismo é um fantasma visível ou uma manifestação do mal. Até quando? Até quando o desconhecimento continuará a alimentar o medo? Até quando África olhará para uma criança albina como se fosse a reencarnação do diabo?

Pode parecer exagero para quem nunca viveu esta realidade. Mas não é.

Há mulheres abandonadas pelos companheiros apenas por terem dado à luz uma criança albina. Há famílias que transformam o nascimento dessa criança em motivo de vergonha e discussões. Há mães amaldiçoadas, acusadas de bruxaria ou de terem “feito pacto com o diabo”. E quando têm mais de um filho albino, o julgamento torna-se ainda mais cruel.

Imagine ser mãe e ouvir tudo isto.

Imagine viver todos os dias com o medo de que o seu filho seja raptado para alimentar práticas criminosas. Imagine preferir mantê-lo dentro de casa para protegê-lo de quem o vê não como uma criança, mas como uma mercadoria.

E nas zonas mais recônditas do continente? Quantas mães já perderam os seus filhos para o tráfico de partes do corpo? Quantas famílias tiveram de reconhecer os seus filhos mutilados, vítimas de uma barbárie que não deveria existir no século XXI?

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Até quando os nossos albinos serão tratados como minas de diamantes?

Até quando nós, mães, continuaremos a ser diabolizadas por termos dado à luz crianças perfeitamente humanas?

Porque é isso que eles são: seres humanos. Tão normais quanto qualquer um de nós.

Já enfrentam desafios suficientes. O calor intenso, a necessidade constante de proteção solar, as dificuldades no acesso a cuidados médicos especializados e as limitações impostas por uma sociedade que insiste em julgá-los antes de os conhecer.

Dói. Dói profundamente.

Mas acredito que a mudança começa com o conhecimento. Se a sociedade procurar compreender o que realmente é o albinismo, deixará de olhar para uma pessoa albina como um objeto de curiosidade, uma mina de ouro ou um símbolo de azar.

O que não compreendemos não precisa de ser transformado em medo. E, muito menos, em crueldade.

Porque o verdadeiro inimigo nunca foi o albinismo.

Sempre foi a ignorância.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança
Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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