Por Paulo Maia
A manhã começava com um ritual em que cada gesto tinha a precisão de uma cerimônia. Levantou-se cedo, como fazia diariamente há anos. Cuidou da higiene com esmero, barbeou-se com calma e tomou uma ducha demorada. Vestindo apenas calção e camiseta, foi até a cozinha preparar o café. Enquanto a água alcançava a fervura, caminhou até o portão para apanhar o jornal do dia.
Apreciava aquele primeiro momento de silêncio: o aroma das torradas e dos ovos fritos misturando-se ao cheiro fresco da tinta da imprensa. Passava os olhos pelas manchetes sem grande sobressalto. O periódico trazia o trivial cotidiano: os sobressaltos da política de plantão, os filmes em cartaz, uma crônica de seu autor favorito e a nota sobre um assalto frustrado a um mercado no centro — onde a polícia, guiada por uma denúncia precisa, flagrara os malfeitores no ato.
Após lavar a pouca louça e deixar o jornal sobre a mesa do escritório, retornou ao quarto. Arrumou a cama sem uma única dobra e dedicou-se à escolha do traje. Sair à rua exigia respeito pela cena urbana. Escolheu uma camisa branca impecavelmente gomada, o terno cinza-chumbo retirado da lavanderia na véspera e um lenço discreto dobrado no bolso da lapela. Calçou sapatos pretos de sola de borracha — o único concessionário que fazia ao conforto de suas caminhadas.
Penteou os cabelos já grisalhos e borrifou no pulso duas gotas de sua colônia habitual. Antes de cruzar a porta, conferiu os bolsos: chaves, documentos, um punhado de cédulas e os óculos escuros. Ajustou o chapéu Panamá na cabeça, deu uma última volta pela casa para verificar as trancas e saiu.

Caminhou sem pressa pelas poucas quadras que separavam sua travessa tranquila da avenida principal. Pelo caminho, exercitava o afeto dos pequenos comprimentos: a senhora da lavanderia, o açougueiro que erguia as portas metálicas de seu comércio, um transeunte apressado em sentido contrário e a vizinha que conduzia as duas crianças para a escola.
O aumento do som anunciava a proximidade da grande artéria da cidade. Automóveis, ônibus, motocicletas e bicicletas já disputavam o asfalto, costurando o murmúrio humano que preenchia a calçada.
Ele acelerou o passo apenas o suficiente para integrar-se ao fluxo, mas manteve a postura ereta do observador. Sentia um prazer quase infantil em contemplar aquele espetáculo. Para onde iria toda aquela gente? De onde vinha tanta urgência? Observava fisionomias, adivinhava intenções e demorava o olhar nas vitrines das lojas de calçados e alfaiatarias. Para ele, a cidade não era apenas concreto e tráfego; era o palco onde a comédia humana se desdobrava. Entendia que a civilização não se fazia apenas por decretos ou grandes obras, mas no atrito diário das conversas nas esquinas, nos diálogos breves, nas saudações casuais. E ele precisava testemunhar aquilo de perto.
Muitos já o conheciam. A pontualidade de suas caminhadas transformara sua figura elegante em um marco geográfico do bairro. A pausa para trocar duas palavras sobre o tempo ou o elogio à boa aparência de alguém faziam parte do roteiro que ele próprio se impusera.
Alcançou a pequena livraria com café acoplado que costumava frequentar. Embora soubesse que nenhuma novidade desembarcara nas estantes desde a véspera, demorou-se apreciando as capas e os títulos, imaginando os mundos contidos atrás de cada página. Para não parecer um mero espectador abusado, comprou uma revista cultural e um volume de contos — mais um para a estante da sala que morreria sem ser folheado.
Seguiu para a praça arborizada a poucas quadras dali. Ajeitou-se em um banco sob a sombra das árvores e abriu a revista. Entre uma página e outra, espreitava os passantes. Crianças correndo pelo gramado, adultos trocando confidências em sussurros que ele supunha serem segredos de estado ou conspirações passionais, e figuras misteriosas que sua imaginação logo catalogava como pequenos vigaristas arquitetando algum golpe. Nada lhe escapava — ou melhor, nada escapava à sua apetite por inventar vidas alheias.
O sol do meio-dia apertou, exigindo o uso dos óculos escuros. Levantou-se e caminhou até um bar próximo para buscar algo refrescante. Ao balcão, trocou gentilezas com a atendente, que elogiou sua postura e aproveitou para desabafar sobre o marido desempregado — um sujeito que, segundo ela, passava os dias vendo televisão e fumando no sofá, em vez de andar pelas ruas buscando um trabalho digno. Ele ouviu com paciência, ofereceu palavras de alento e despediu-se com um sorriso cordial e um “até amanhã”.

O cansaço começava a pesar-lhe nos ombros, mas fez questão de estender o trajeto até a fachada do edifício onde trabalhara por quase quatro décadas. Parou sob a sombra do prédio vizinho e contemplou a portaria de vidro. Nenhum dos antigos colegas estava mais lá; a empresa mudara de mãos, a rotina renascera com outros rostos. Permaneceu ali por alguns minutos, resgatando na memória os bons e os maus momentos vividos sob aquele teto. Por um instante, baixou a cabeça, respirou fundo o ar quente do meio-dia e ergueu o queixo novamente.
A cidade fervilhava no horário do almoço. Era a sua hora preferida. O turbilhão de trabalhadores apressados, os encontros nas calçadas e o ruído dos talheres nos restaurantes criavam uma sinfonia vibrante. Ele retornou ao bar, ocupando a última banqueta do balcão, de onde podia dominar todo o salão. Almoçou o prato do dia observando o entra e sai de clientes e o desfile dos garçons com suas bandejas equilibradas.
Ao terminar o café expresso, pagou a conta, ajeitou o chapéu Panamá diante do espelho da parede, despediu-se e ganhou a calçada de volta. O regresso para casa deu-se no mesmo ritmo calmo. Prestava atenção aos trajes das pessoas, classificando-as mentalmente entre elegantes e desalinhadas, segundo o seu próprio código de etiqueta.
Ao cruzar o portão de sua casa, os vizinhos na rua puderam, mais uma vez, acertar os ponteiros de seus relógios. O homem estava de volta.
Entrou, trocou o terno por um pijama confortável de algodão, preparou um chá e recostou-se no sofá com o jornal da manhã e um charuto. Leu com mais atenção as crônicas e as notícias até sentir as pálpebras pesadas.
Ao adormecer no silêncio da sala, sonhou com as fisionomias que vira na calçada, misturando-as com a lembrança da esposa que a doença lhe roubara anos atrás. Ele era, em essência, um homem solitário, mas habitado por uma insaciável curiosidade pela vida. Um aposentado que saía à rua todos os dias não apenas para observar o mundo em seus detalhes mais insignificantes, mas para cumprir o dever mais fundamental de sua solitude: ser visto, ser cumprimentado e confirmar, diante de testemunhas, que ele ainda estava vivo.






























