Por Paulo Maia
Caro leitor e querida leitora, se você tem tentado manter uma conversa minimamente frutífera nos últimos tempos, já deve ter sentido o peso de um alerta mental constante: o receio quase fóbico de ferir suscetibilidades. Discutir qualquer assunto público hoje virou uma atividade de alto risco, uma travessia às cegas por um campo minado onde o ressentimento e a intolerância tornaram-se os marcadores mais ruidosos do nosso tempo.
O sintoma mais cansativo dessa neurose coletiva é a obrigação de redigir, a cada frase emitida, um exaustivo termo de isenção de responsabilidade (aquela espécie de disclaimer, usando a palavra do inglês). Tornou-se um vício literário e conversacional ter que explicitar não apenas o contexto, mas a óbvia premissa de que criticar um lado não significa, subliminarmente, advogar pelo outro. Se alguém aponta uma inconsistência num posicionamento de esquerda, precisa gaguejar três parágrafos de ressalvas para provar que não se filiou à extrema-direita — e vice-versa. Essa necessidade paranoica de provar uma “pureza de intenção” antes mesmo de expor a ideia contamina o raciocínio, esteriliza a espontaneidade e transforma a comunicação numa burocracia insuportável. Mas reconheço que hoje isso se tornou fundamental, para não ser “confundido” em sua mensagem.

Não se trata de apontar dedos com indignação barata, mas de encarar a nossa própria e trágica ambivalência. Somos seres profundamente contraditórios, mas a “era da informação” — essa ironia contemporânea que transformou a ágora grega em um ringue de luta livre — recusa-se a aceitar a complexidade. Em vez do método dialético que a boa filosofia nos legou (a tese que encontra a antítese para construir uma síntese edificante), mergulhamos em um labirinto de frases prontas. A sanha moderna não é compreender o real, mas caçar o Santo Graal da “lacração”: aquela expressão definitiva que cale a opinião alheia e encerre o debate pela força.
Brandando a bandeira da liberdade de expressão, a espécie Sapiens volta a fazer o que sempre fez com suas grandes conquistas. A linguagem, criada para nos aproximarmos, expressarmos afeto e erguer a civilização, é reaproveitada como instrumento de agressão. O mesmo ocorre agora quando usamos o poder da inteligência artificial para criar confusões conceituais sob medida: o problema nunca foi a ferramenta, mas a nossa incapacidade secular de lidar com os nossos próprios impulsos. A pedra que serviu para cortar a caça e alimentar a tribo é a mesma que esmaga o crânio do semelhante.

A verdade é que, em minha opinião (olha o disclaimer ai!) falta elegância, falta sobriedade e sobra um desejo infantil de vencer conversas a qualquer custo. Ao trocarmos o diálogo pelo patrulhamento, transformamos o outro em um inimigo em potencial e nos condenamos ao isolamento das nossas próprias bolhas de confirmação.
Não sei se há respostas prontas para essa armadilha. Creio que não.Resta-nos apenas o desconforto de pisar em ovos e a lucidez melancólica de reconhecer que, enquanto continuarmos usando a palavra para silenciar em vez de escutar, seremos apenas analfabetos da nossa própria humanidade. No grande teatro do nosso tempo, uma possível Dolce Vita talvez não pertença aos que gritam a “sua” verdade absoluta para a plateia das redes, mas aos poucos que ainda preservam a coragem e a elegância de conversar sem medo de ser mal interpretados.





























