Por Marco Nascimento
Vivemos uma época curiosa.
Nunca tivemos tanto acesso à informação e, talvez, nunca tenha sido tão difícil saber a que informação devemos realmente prestar atenção.
A cada minuto, somos atravessados por notícias, opiniões, imagens, vídeos, comentários, interpretações, recomendações, anúncios e acontecimentos produzidos em velocidade superior à nossa capacidade de assimilação.
A informação deixou de ser escassa.
O que começa a se tornar escasso é a atenção qualificada.
Nas redes sociais, conteúdos cada vez mais curtos disputam nossa percepção. Uma imagem sucede outra. Um vídeo termina e imediatamente outro começa. Uma opinião provoca indignação; outra provoca riso; uma terceira desperta curiosidade. O algoritmo aprende rapidamente aquilo que captura nosso interesse e nos oferece mais daquilo.
É um ambiente extraordinariamente eficiente para manter a pessoa conectada.
Mas conexão não significa necessariamente compreensão.
A atenção saltuária
Talvez estejamos diante de uma nova forma de dispersão cognitiva: a atenção saltuária, constantemente deslocada de um estímulo para outro.
Não se trata de afirmar que toda pessoa que utiliza vídeos curtos desenvolva algum transtorno. A questão é outra: que tipo de hábito mental estamos cultivando quando nos acostumamos a consumir conteúdos em sucessão acelerada, sem tempo suficiente para aprofundamento, elaboração e reflexão?
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, reunindo 71 estudos e mais de 98 mil participantes, encontrou associações entre maior uso de vídeos curtos e indicadores menos favoráveis de cognição, com associações particularmente relevantes em atenção e controle inibitório. Os próprios autores ressaltam que os resultados não permitem reduzir a questão a uma relação causal simples.
Outra revisão publicada em 2026, envolvendo 42 estudos e quase 47 mil participantes, encontrou associações entre uso intenso e não estruturado de vídeos curtos e dificuldades relacionadas à atenção, memória de trabalho e autorregulação, destacando também a necessidade de estudos longitudinais e experimentais.
A questão, portanto, talvez não seja simplesmente “As redes sociais fazem mal?”. A pergunta mais interessante seria “Que tipo de consciência estamos exercitando enquanto utilizamos as redes sociais?”; “Pensar saiu de moda?
Em determinados ambientes digitais, parece que pensar demoradamente perdeu valor.
O que importa é a tendência. A trend. A curtida. A visualização. O compartilhamento. A reação imediata.

Uma ideia complexa precisa caber em poucos segundos. Uma questão histórica precisa de uma frase. Um tema científico precisa de uma opinião. Uma experiência de vida transforma-se em conselho. Uma informação ainda não verificada pode circular milhares de vezes antes que alguém pergunte: “Isso é verdade?”
E talvez aqui esteja um dos grandes desafios do nosso tempo. Não é mais suficiente saber acessar informação; precisamos aprender a discerni-la.
Não basta perguntar “o que está sendo dito?”. É necessário perguntar “Quem está dizendo?”; “Com que evidências?”; “Com qual finalidade?”; “O que está sendo omitido?”; “Isso faz sentido?”; “Como posso verificar?”. “Que consequências decorrem de aceitar essa informação como verdadeira?”.
Essa atitude aproxima-se de uma das propostas centrais do Paradigma Consciencial: o Princípio da Descrença, segundo o qual não devemos aceitar algo simplesmente porque alguém afirma que é verdadeiro, mas experimentar, refletir e buscar verificar pessoalmente aquilo que for possível.
Da informação à lucidez
O Paradigma Consciencial propõe uma ampliação radical da perspectiva sobre a consciência.
Em vez de considerar o ser humano apenas a partir de sua dimensão física e cerebral, a Conscienciologia propõe estudá-lo de maneira integral, incluindo dimensões holossomática, multidimensional e multiexistencial.
Independentemente de o leitor aceitar ou não essas premissas, há uma provocação extremamente atual nessa proposta: será que estamos utilizando todo o nosso potencial de consciência?
A tecnologia amplia nossa capacidade de acessar dados, mas acessar dados não é o mesmo que desenvolver lucidez. Podemos saber mais e compreender menos. Podemos estar conectados com milhares de pessoas e, simultaneamente, estar desconectados de nós mesmos. Podemos consumir centenas de conteúdos por dia e terminar a noite sem conseguir lembrar de quase nada que tenha produzido transformação real em nossa maneira de pensar. A memória cheia e a consciência vazia
É tentador dizer que a memória de curto prazo está “super estimulada” enquanto a memória de longo prazo permanece pouco acessada. A realidade cognitiva é mais complexa do que essa fórmula. Mas a metáfora ajuda a perceber algo importante: informação consumida não é necessariamente conhecimento assimilado.
Conhecimento exige tempo, associação, repetição, elaboração, recuperação daquilo que foi aprendido e, sobretudo, que a informação seja incorporada a uma estrutura mais ampla de compreensão.
Talvez uma das maiores perdas da cultura da velocidade seja justamente o intervalo necessário para que algo se torne nosso. O conteúdo passa pela tela, mas passa pela consciência?

O primeiro passo: recuperar o discernimento
Dentro da perspectiva conscienciológica, lucidez e discernimento assumem importância central.
Lucidez pode ser compreendida, nesse contexto, como a qualidade da percepção consciente da própria realidade e das circunstâncias. Já o discernimento envolve a capacidade de distinguir, avaliar e identificar diferenças relevantes — inclusive entre aquilo que é prioritário e aquilo que é secundário. A literatura conscienciológica trata o autodiscernimento justamente como recurso para separar, entre outros aspectos, o verdadeiro do falso e o prioritário do preterível.
Essa capacidade torna-se particularmente preciosa em uma sociedade na qual quase tudo parece urgente. Nem tudo que chama nossa atenção merece nossa atenção. Essa talvez seja uma das competências evolutivas mais importantes para o século XXI.
E depois do cérebro?
É aqui que surge uma das propostas mais instigantes do Paradigma Consciencial: o paracérebro.
Na perspectiva conscienciológica, o paracérebro é associado à dimensão extrafísica da consciência e à possibilidade de manifestação e processamento de informações para além das funções atribuídas exclusivamente ao cérebro físico. A literatura da própria área relaciona o conceito a estudos de multidimensionalidade, parapsiquismo e lucidez.
Não se trata de afirmar que a neurociência convencional tenha comprovado a existência do paracérebro.
Trata-se de reconhecer que o Paradigma Consciencial formula uma hipótese mais ampla sobre a consciência e convida o interessado à autopesquisa e à experimentação pessoal.
E aqui encontramos uma pergunta fascinante: se o cérebro pode ser treinado, será que também podemos desenvolver deliberadamente nossas capacidades de percepção multidimensional? Ela muda completamente o horizonte.
Deixamos de pensar apenas em como administrar melhor nosso tempo diante das telas e começamos a pensar em como administrar melhor nossa própria consciência.
Como continuar evoluindo sem ser arrastado pela overdose de informação?
Não precisamos abandonar a tecnologia, mas desenvolver uma relação mais lúcida com ela.
Algumas práticas simples podem funcionar como exercícios cotidianos de preservação da atenção e ampliação da autopesquisa:
1. Criar espaços sem estímulo.
Momentos do dia sem vídeos, notificações, música ou novas informações. O silêncio também é ambiente cognitivo.
2. Recuperar o hábito da leitura aprofundada.
Ler algo que não possa ser compreendido em 30 segundos é um exercício de sustentação da atenção.
3. Registrar aquilo que realmente aprendemos.
Escrever uma síntese após uma leitura ou curso ajuda a transformar consumo de informação em elaboração pessoal.
4. Praticar a checagem antes do compartilhamento.
Antes de reagir, perguntar: isso é fato, interpretação, opinião ou apenas repetição?
5. Exercitar o Princípio da Descrença.
Não acreditar automaticamente — mas também não rejeitar automaticamente. Investigar.
6. Fazer autopesquisa.
Observar quais conteúdos capturam nossa atenção, quais emoções provocam e quais padrões de comportamento desencadeiam.
7. Desenvolver momentos de reflexão sobre o propósito.
Perguntar periodicamente: aquilo que estou fazendo hoje contribui para aquilo que quero construir como consciência?
8. Experimentar a multidimensionalidade com discernimento.
Para quem se identifica com a proposta conscienciológica, práticas de autopesquisa, registro de experiências, estado vibracional, técnicas projetivas e observação dos próprios fenômenos podem constituir caminhos experimentais — sempre preservando o princípio de não aceitar experiências pessoais como verdades universais.

Propósito: para além desta existência
Existe ainda uma questão mais profunda. Se considerarmos a hipótese da multidimensionalidade e da multiexistencialidade, o conceito de propósito de vida ganha outra escala.
O propósito deixa de ser apenas “o que quero conquistar nesta vida?” e pode passar a incluir “que consciência estou me tornando?”.
Essa mudança de perspectiva pode modificar a relação com dificuldades, perdas, escolhas, trabalho, relacionamentos e responsabilidades. O sentido da existência deixa de depender exclusivamente dos resultados imediatos. Passa a incluir o processo de desenvolvimento da própria consciência.
Não se trata de apresentar essa visão como tratamento para depressão ou como substituto de cuidados de saúde. Trata-se de uma possibilidade filosófica e conscienciológica de pensar o sentido da existência em uma perspectiva mais ampla.
Talvez o propósito seja justamente uma das pontes entre a vida cotidiana e a perspectiva evolutiva.
O próximo passo
A humanidade está produzindo uma quantidade extraordinária de informação. A questão é saber se estamos produzindo, na mesma proporção, consciência capaz de utilizá-la. A tecnologia continuará acelerando, os algoritmos continuarão aprendendo, os vídeos provavelmente continuarão ficando mais curtos e as inteligências artificiais continuarão ampliando nossa capacidade de produzir, pesquisar e comunicar. Não parece razoável tentar voltar ao mundo anterior.
O desafio talvez seja outro: avançar junto com a tecnologia sem permitir que nossa consciência seja reduzida ao ritmo dela.
Talvez o próximo salto evolutivo não seja simplesmente aprender a processar mais informação; seja aprender a selecionar melhor aquilo que merece ser processado.
E, para o pesquisador da consciência, surge uma possibilidade ainda mais ousada: depois de ampliar o cérebro, investigar o paracérebro; depois de dominar a informação, desenvolver o discernimento; depois de conquistar conexão, buscar multidimensionalidade; depois de perguntar “o que está acontecendo?”, começar a perguntar: “O que estou fazendo com aquilo que percebo?”
Talvez pensar não tenha saído de moda. Talvez estejamos apenas diante da necessidade de transformar o ato de pensar em uma conquista evolutiva consciente.
E você, leitor ou leitora, já conseguiu acessar, com lucidez, qual pode ser o seu próximo passo evolutivo?
A ampliação do paracérebro continuará apenas uma hipótese enquanto não experimentarmos os fenômenos parapsiquicos com intenção e discernimento.




























