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O mito da palavra escrita e o poder da narrativa

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

A escrita nos deu a permanência, mas a oralidade nos deu a presença — no fundo, continuamos sendo seres que se reúnem em círculo para ouvir uma história e tentar dar sentido ao caos

Por Paulo Maia

Caro leitor e queridíssima leitora, estes tempos de muito barulho e tagarelice podem nos levar a nos perguntar: para que tudo isso?

Se observarmos a trajetória da nossa espécie sob uma perspectiva antropológica sem soberba, descobriremos que a nossa maior vantagem competitiva nunca foi a força física ou a velocidade. Foi a cooperação fundada na fala organizada. Como lembra o historiador Yuval Noah Harari, o Homo sapiens dominou o planeta porque foi capaz de colaborar em massa por meio do storytelling — a arte de contar histórias e criar narrativas compartilhadas. E o primeiro e mais potente veículo dessa cooperação foi a palavra falada. Sim, toda a empreitada humana, marcada por violência, mas também por conquistas civilizatórias, vem na esteira dessa nossa forma de estar no mundo.

A cultura humana viveu na cadência do sopro e da escuta por muito mais tempo do que sobre a superfície do papel. Foi na oralidade, ao redor do fogo, que moldamos a nossa percepção da realidade.

Ao ouvirmos uma história, não apenas processamos sons; ativamos uma maquinaria imaginativa profunda. O cérebro humano usa a simbologia das palavras para projetar imagens internas, conectando experiências passadas com projeções futuras. Esse teatro da mente não é mero entretenimento: é um mecanismo biológico de sobrevivência. Através da narrativa oral, aprendemos a navegar pelos perigos do mundo, buscando atalhos para minimizar a dor e alcançar o conforto sem precisar vivenciar cada tragédia na pele.

Foto de Joris Voeten na Unsplash

O império da oralidade e a lição de Godinho

Na nossa rotina hiperconectada, costumamos encarar a capacidade de ler e escrever como um atributo quase inato, uma obrigação moral de qualquer indivíduo civilizado. Contudo, essa é uma ilusão da nossa miopia histórica.

Grandes líderes, generais imperiais, reis e navegadores ergueram civilizações inteiras, conquistaram territórios e conduziram povos sem jamais terem assinado o próprio nome ou lido um único pergaminho. A inteligência e o domínio do real sempre habitaram a camada simbólica e intuitiva da percepção, e não apenas a decodificação mecânica de letras.

Essa vitalidade da palavra falada transparece de forma exemplar na história dos idiomas. Em seu célebre livro “Once Upon a Time Um Inglês…”, de 2001, o autor John D. Godinho demonstra brilhantemente como a língua inglesa se espalhou e se consolidou pelo mundo não através de tratados gramaticais rígidos, mas pela força viva e mutável da oralidade — moldada pelo choque de culturas, invasões, comércios e conversas de rua. A língua é um organismo vivo que se adapta na boca do povo muito antes de virar regra no dicionário.

A narrativa oral nunca foi estática: a cada geração, a cada ouvinte, a história contada ganha contornos e interpretações novas. O ato de ouvir é um ato profundamente criativo em que a realidade é constantemente ressignificada.

A caverna e a tecnologia burocrática

Essa busca por registrar o abstrato deu o seu primeiro grande salto muito antes do surgimento das linguagens formais. Há cerca de 30 mil anos, na escuridão da caverna de Chauvet, no sul da França, nossos ancestrais desenharam animais com tal dinamismo e carga dramática que levaram Pablo Picasso a exclamar, milênios depois: “Não aprendemos nada desde então”. Diante daquelas impressionantes figuras e desenhos bem detalhados, ali nascia o ser cultural, utilizando a simbologia visual para tentar traduzir o mistério da própria existência.

Das pinturas de Chauvet até a invenção da escrita pelos sumérios, na Mesopotâmia, deslizaram mais de vinte e cinco mil anos. E cabe o registro irônico: a escrita não nasceu para a poesia ou para a filosofia, mas para a burocracia contábil de controle de safras e impostos.

Na escala do tempo humano, ler e escrever são tecnologias de “ontem à noite”. Biologicamente, o nosso cérebro não possui um módulo genético pré-instalado para a leitura; nós tivemos que “reciclar” áreas da visão e da linguagem falada para decodificar esses pequenos traços abstratos. Trata-se de uma habilidade cultural recente, exigida pelo mundo moderno como ferramenta de navegação social e profissional, mas que ainda está em pleno processo de maturação em nossa espécie.

Exemplo de tabuleta cuneiforme com inscrição suméria
Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

A sedução da narrativa e os perigos da pós-verdade

Ler e escrever são conquistas extraordinárias que ampliaram o nosso universo subjetivo e nos permitiram conversar com os mortos através dos séculos.

A escrita nos deu a permanência, mas a oralidade nos deu a presença. No fundo da nossa estrutura psíquica, continuamos sendo aqueles mesmos seres vulneráveis que se reúnem em círculo para ouvir uma boa história, fechar os olhos e construir uma simulação do mundo para tentar sobreviver com menos dor e mais conforto.

Entretanto, esse mecanismo ancestral carrega uma profunda ambiguidade. O mesmo storytelling que uniu a espécie e nos permitiu projetar o futuro é, em tempos de hiperconexão, a ferramenta perfeita para o engano. Em uma era saturada por fake news e realidades fabricadas, percebemos que o cérebro humano continua absurdamente fácil de ser seduzido por uma narrativa bem contada — mesmo quando ela é inteiramente falsa. A nossa necessidade atávica de dar sentido ao caos nos faz, não raro, preferir uma mentira envolvente e confortável a uma verdade árida.

Reconhecer que a leitura e a escrita são construções culturais recentes — e não determinações biológicas inatas — nos devolve a humildade diante da história. Lembra-nos de que a sabedoria humana habita na capacidade de interpretar símbolos e criar significados. Mas, acima de tudo, exige de nós uma vigilância crítica constante sobre o poder das histórias que ouvimos, lemos e que decidimos espalhar.

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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