Por Vanya Sansivieri Dossi
Esses dias estive pensando em política internacional e me veio uma imagem: uma partida de War.
Cada jogador recebe uma missão, observa o mapa, fortalece posições, estabelece alianças e tenta antecipar os movimentos dos outros.
É claro que política internacional não é uma partida de War. Não existem territórios simplesmente conquistados por uma jogada, e os interesses entre países são muito mais complexos. Mas a metáfora ajuda a pensar em uma questão: poder também se exerce por influência.
E influência pode acontecer por meio da economia, das tarifas, do comércio, da tecnologia, da informação, da segurança, dos recursos estratégicos e da pressão diplomática.
É nesse contexto que começo a olhar para a relação atual entre Brasil e Estados Unidos com atenção.
Qual é a missão?
Em 2026, essa relação ganhou novos contornos. O governo Trump adotou medidas comerciais duras contra o Brasil, enquanto um relatório reservado da Abin apontou risco de pressão e possível interferência norte-americana nas eleições brasileiras.

A Academia Brasileira de Ciências e a SBPC também manifestaram preocupação com possíveis interferências externas capazes de afetar a soberania e a livre formação da vontade dos eleitores.
É importante fazer uma distinção: um alerta sobre possibilidade de interferência não significa prova de que ela tenha acontecido. Mas também não parece algo que devamos ignorar.
Nesse cenário, chama atenção a aproximação política de Flávio Bolsonaro com Donald Trump.
Flávio tem defendido maior aproximação econômica e estratégica com os Estados Unidos, incluindo uma proposta de acordo de livre comércio com Estados Unidos, México e Canadá, além de parcerias estratégicas envolvendo minerais críticos. Também apresentou propostas relacionadas ao posicionamento internacional do Pix.
São posições políticas públicas. E defender uma aproximação com os Estados Unidos não significa, por si só, abrir mão da soberania.
A questão que me interessa é outra: em que momento uma parceria deixa de ser apenas uma parceria?
Soberania não é isolamento. O Brasil precisa estabelecer relações internacionais, negociar, comercializar e construir alianças.
Mas autonomia significa também poder negociar condições, estabelecer limites e manter diferentes parceiros.

Talvez, por isso, a pergunta não deva ser simplesmente se somos a favor ou contra os Estados Unidos.
Deveríamos perguntar: o que o Brasil ganha? O que oferece? Quais interesses estão envolvidos? E quanto espaço de decisão permanece nas mãos do próprio Brasil?
Hoje, soberania não passa apenas por fronteiras físicas. Passa também por tecnologia, dados, energia, infraestrutura, minerais estratégicos, sistemas financeiros e informação.
O Brasil tem recursos e dimensões que o tornam relevante internacionalmente, então, talvez a questão não seja descobrir se estamos no tabuleiro (sabemos que estamos), mas, saber como estamos jogando.
É possível estabelecer parcerias estratégicas sem abrir mão da autonomia. É possível negociar sem transferir ao outro jogador o direito de definir as regras.
No War, cada jogador tenta cumprir sua missão. Na vida real, talvez o mais importante seja conhecer a nossa.
Porque o Brasil não é uma peça. O Brasil deveria estar sentado à mesa.






























