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Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

A herança da vitimização: entre o passado e o presente

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Entre a descolonização mental e a responsabilidade individual

Querido leitor e querida leitora, a vitimização conduz-nos automaticamente a um nível energético extremamente baixo, por razões óbvias. Mas, para além desses factos evidentes, raramente nos perguntamos: será que a tal “vítima” tem consciência clara do “drama” que encena perante determinada situação?

Ora vejamos. O continente africano, de forma geral, é rotulado como pobre, marcado por vitimizações recorrentes. E, sinceramente falando, Moçambique não se distancia muito dessa realidade. Passamos por inúmeros conflitos políticos e sociais, de tal modo que uma das nossas ferramentas mais usadas tem sido precisamente a vitimização — em qualquer circunstância que nos coloque à prova ou que exija responsabilidade da nossa parte.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Quase sempre, de forma inconsciente, preferimos terceirizar a responsabilidade dos nossos actos. No fim, a justificativa soa familiar: “não é minha culpa, foi a pessoa X que não fez, é o sistema que não funciona, são as pessoas que não gostam de mim, eu é que não tenho sorte, etc.” Raramente assumimos. E, inevitavelmente, alguém há-de dizer: “ainda estamos em processo de descolonização mental; afinal, só estamos independentes há 50 anos.”

Durante séculos ficámos à mercê dos colonos. Ao libertar-nos, a nossa luta foi sobretudo pela sobrevivência, pela restauração de valores, estruturas e crenças. Contudo, não me recordo de ter ouvido falar de uma verdadeira reestruturação mental. Era como se fôssemos robôs libertos, prontos a seguir novas lideranças, mas sem nunca passar por uma desconstrução profunda que nos permitisse viver e sentir o ser livre.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Agora pergunto: se o meu subconsciente está infectado e o meu consciente não tem essa noção, como poderei eu evitar a vitimização?

Sim, as gerações vão mudando. Mas a forma de pensar foi desenvolvida e transmitida de geração em geração. Assim, este hábito de nos vitimizarmos e de nos colocarmos na posição de “coitadinhos” acabou por ser herdado — e continua presente no nosso contexto moçambicano.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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