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Mãe solo e atípica, terapeuta integrativa e escritora. Acredita no poder do acolhimento e das histórias para transformar a maternidade em uma jornada mais leve.

Antes de julgar, tente andar um dia no meu lugar

Quando uma mãe atípica levanta a voz, não é exagero; é a exaustão de uma vida inteira sendo silenciada

Há algumas semanas, eu vivi um daqueles momentos em que nos faz refletir muito, sob todos os ângulos. Uma situação que me colocou diante de um espelho torto: o espelho que reflete não o que somos, mas como o mundo, muitas vezes, nos enxerga.

Consegui uma vaga para a Sara em um lugar importante para ela. Uma conquista que parecia simples, mas que para uma mãe atípica carrega o peso de uma vitória olímpica. Até que o telefone tocou.

A voz do outro lado comunicava, com uma frieza burocrática, que não seria mais possível. Havia outra criança com deficiência no mesmo horário e a pessoa responsável não conseguiria “atender” as duas ao mesmo tempo.

O chão pareceu sumir por um instante. Não pela notícia em si, mas pelo que ela carregava nas entrelinhas: Se fosse uma criança típica, a vaga ainda existiria. A dificuldade não era de espaço, era de acolhimento. Era a confissão velada de que minha filha, por ser quem é, era vista como “pesada demais” para caber junto com outro igual.

Imagem de freepik

Tentei argumentar. Tentei falar sobre direitos, sobre leis, sobre o mínimo de dignidade que minha filha merece. Mas do outro lado da linha, uma pessoa decidiu que minha voz não merecia espaço. A cada tentativa, a cada três palavras, uma interrupção. Me exaltei para tentar ter voz, sem sucesso. Até que, para finalizar a humilhação, desligaram o telefone na minha cara.

Fiquei ali, com o aparelho mudo na mão, sentindo o peso de uma solidão que não se explica. Não era apenas a vaga que estava sendo negada. Era a sensação de que minha luta, minha filha, minha realidade, tudo aquilo era invisível para alguém.

E então vieram os olhares de fora. Pessoas que souberam do ocorrido e, sem terem pisado no chão que eu piso todos os dias, da maternidade atípica, acharam que tinham o direito de me julgar. “Ah, mas será que precisava gritar?” “Ah, mas você não acha que exagerou?”. “Só estavam pensando na segurança da sua filha”.

Não, eu não exagerei. Eu reagi. Reagi porque cansei de ser interrompida. Cansei de ter que provar que minha filha existe, que ela tem direitos garantidos por lei, que ela merece tanto quanto qualquer outra criança. Cansei de ser vista como “coitada” quando, na verdade, sou apenas uma mãe lutando pelo básico.

E é sobre isso que quero falar hoje. Não para contar um caso, mas para pedir um olhar.

Imagem de asierromero no Freepik

Um olhar para as mães atípicas que, todos os dias, enfrentam filas, burocracias, negativas, portas fechadas e vozes que as interrompem. Um olhar que não julgue de longe, mas que tente compreender de perto. Que acolha.

Não somos coitadas. Somos guerreiras, sim, (apesar de eu detestar esse termo) mas não por escolha. Somos guerreiras porque a vida nos colocou em uma trincheira onde desistir não é opção. Onde cada conquista, por menor que pareça, exige uma batalha que ninguém vê, existe o choro debaixo do chuveiro, existe a exaustão ao colocar a cabeça no travesseiro à noite e os pensamentos que insistem em não nos deixar dormir em busca de soluções.

Quando uma mãe atípica levanta a voz, não é exagero. É cansaço de anos sendo silenciada.

Quando ela insiste, não é implicância. É amor traduzido em persistência.

Quando ela briga pelo que é de direito, não é vitimismo. É a consciência de que, se ela não lutar, ninguém lutará por eles.

No fim, a vaga veio. Depois de muito insistir, de acionar quem precisava ser acionado, o direito foi reconhecido. O desgaste, o estopim da crise de ansiedade em que me encontro ninguém vê. E a cicatriz daquele telefonema, da interrupção, do desligamento na cara, essa ainda dói. Não por mim. Dói por todas as mães que não tiveram a chance de gritar. Que não tiveram a informação, o apoio, a energia para seguir.

Imagem de freepik

Então, se você chegou até aqui, faço um pedido: antes de julgar a reação de uma mãe, pergunte-se o que ela já deve ter passado para chegar naquele ponto. Antes de achar que é “muito barulho por nada”, lembre-se que o “nada” para você pode ser “a gota d’água” para alguém.

E para as mães que estão na luta: eu vejo vocês. Eu sinto o que vocês sentem. E sigo aqui, de mãos dadas com todas, na certeza de que juntas somos mais fortes, e de que nenhum telefonema, por mais cruel que seja, vai calar a nossa voz.

Porque amar um filho atípico não nos torna especiais. Nos torna, simplesmente, mães que aprenderam a lutar. E isso, sim, ninguém pode nos tirar, muito menos nos calar.

Que você, que nós sejamos ouvidas e acolhidas, tanto quanto nossos filhos.

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Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Gisele Ribeiro é autora do livro ”Diário de uma mãe nada especial” obra em que desmistifica a maternidade idealizada e compartilha sua transformação pessoal e profissional. É terapeuta integrativa e criadora da mentoria Conversa Materna, um espaço de acolhimento para que cada mãe possa recriar sua própria história.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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