Skip to content
Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

O diário secreto de Miss Marple

Figura icônica de Miss Marple com seu chapéu, desenhada com Apple Pencil aplicando em camadas sobre fundo preto. Ilustração por Ana Helena Reis

Aquelas anotações noturnas foram meu primeiro ensaio de investigação – mas não de crimes, e sim de mim mesma

O ritual da noite era sempre o mesmo: minha irmã fechava as portas do armário, apagava a luz e decretava silêncio. Só então eu podia, sorrateiramente, pegar o meu livro, lápis, um caderninho e me esgueirar para o meu refúgio de leitura noturna – o banheiro– nada confortável, convenhamos, mas privativo, o que considerava um privilégio.

O livro escolhido era adequado a essa leitura furtiva – algum título da coleção de Agatha Christie que minha mãe guardava na biblioteca. O Assassinato do Expresso Oriente, Morte no Nilo, Appointment With Death, Poirot Perde uma Cliente…. lia avidamente todas essas histórias que envolviam mistérios, crimes, e finais surpreendentes. Me encantava com Poirot, o investigador astuto e bigodudo e Miss Marple, uma velhinha a quem não se dava o menor crédito como investigadora, mas era brilhante ao tecer a linha de raciocínio dos assassinos e chegar ao desfecho do crime.

Na minha mente infanto-juvenil me imaginava parte da trama, escondida atrás de uma cortina a observar uma atitude suspeita, aflita para poder trocar ideias com Poirot sobre as minhas hipóteses. No silêncio espesso da madrugada pensava: E se fosse ali, na minha banheira amarela, que encontrassem o próximo corpo? Isso me fazia esquecer completamente a pouca luz do ambiente, a dor nas costas de ficar sentada no chão e o silêncio da casa que, muitas vezes, me fazia imaginar que alguém abriria a porta e eu é que seria a próxima vítima.

Aquelas anotações noturnas foram meu primeiro ensaio de investigação – mas não de crimes, e sim de mim mesma. Naquele pequeno banheiro de ladrilhos amarelos, cercada de meus companheiros da noite, eu tinha voz própria, acolhimento e o respeito que me faltava pela singularidade de menina fora da roda.

Minha leitura era intercalada por momentos em que registrava no caderninho reflexões sobre a vida fora da fantasia, as descobertas reais sobre mim e sobre os outros participantes do duelo entre a inocência da infância e a impiedade da adolescência… enigmas que nem Miss Marple, com sua clarividência própria de uma mulher, conseguiria decifrar.

Esse diário foi a porta de entrada para (muitas décadas mais tarde) me aventurar pela escrita criativa, refugiada em um outro espaço ladrilhado que foi o isolamento durante a Pandemia.

 Fui buscar lá no fundo minha veia investigativa para me dedicar aos contos de ficção, deixando sempre uma porta aberta no final dos textos para que o leitor pudesse fazer a suas próprias descobertas. Não é por menos que o meu primeiro livro de contos, se chama “Conto ou não conto”. Tenho certeza de que Miss Marple gostaria desse título.

Design Dolce Morumbi | Divulgação

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.
Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

Demais Publicações

O que você comunica antes mesmo de abrir a boca?

Quem não suporta o silêncio costuma preencher os espaços com explicações, justificativas e argumentos desnecessários

O calafrio do sim

O amor deve ser vivido quando o coração não se deixa enrolar pelo líquido amargo e viscoso da bílis

Por que desaprendemos a esperar?

Psicóloga explica como o excesso de estímulos está mudando a forma como pensamos, descansamos e lidamos com o silêncio

O código quebrado

Nas regras do anonimato, a gentileza pode ser uma transgressão imperdoável; pois quem exige um rosto de quem apenas comprou um espelho, acaba por se perder no próprio reflexo

Nem tão jovem, nem mais velho: por que homens entre 35 e 45 anos viraram os mais desejados

O que realmente atrai mulheres hoje? Especialista aponta que reciprocidade e maturidade emocional pesam mais que juventude

Uma voz para desacelerar o mundo

Entre a paixão por carros, o passado itinerante no interior e uma virada corajosa de carreira, o cantor de 29 anos transformou suas transmissões ao vivo em um refúgio de cura, contemplação e presença real para milhares de fãs

Token inválido

O falecido nunca tinha duvidado que eu era eu

A Odisseia da existência do mito ao cinema: a dor do regresso e o não estar em casa

O homem passa a definir-se pela inquietação que o impele sempre além de si mesmo

Acertos e erros do ESG: o amadurecimento de uma agenda que veio para ficar

A agenda deixou de ocupar um espaço isolado no planejamento corporativo para se tornar um fator diretamente ligado à geração de valor, competitividade e resiliência

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

arte-painel-dolce-cantiga-crianca_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções