O ritual da noite era sempre o mesmo: minha irmã fechava as portas do armário, apagava a luz e decretava silêncio. Só então eu podia, sorrateiramente, pegar o meu livro, lápis, um caderninho e me esgueirar para o meu refúgio de leitura noturna – o banheiro– nada confortável, convenhamos, mas privativo, o que considerava um privilégio.
O livro escolhido era adequado a essa leitura furtiva – algum título da coleção de Agatha Christie que minha mãe guardava na biblioteca. O Assassinato do Expresso Oriente, Morte no Nilo, Appointment With Death, Poirot Perde uma Cliente…. lia avidamente todas essas histórias que envolviam mistérios, crimes, e finais surpreendentes. Me encantava com Poirot, o investigador astuto e bigodudo e Miss Marple, uma velhinha a quem não se dava o menor crédito como investigadora, mas era brilhante ao tecer a linha de raciocínio dos assassinos e chegar ao desfecho do crime.
Na minha mente infanto-juvenil me imaginava parte da trama, escondida atrás de uma cortina a observar uma atitude suspeita, aflita para poder trocar ideias com Poirot sobre as minhas hipóteses. No silêncio espesso da madrugada pensava: E se fosse ali, na minha banheira amarela, que encontrassem o próximo corpo? Isso me fazia esquecer completamente a pouca luz do ambiente, a dor nas costas de ficar sentada no chão e o silêncio da casa que, muitas vezes, me fazia imaginar que alguém abriria a porta e eu é que seria a próxima vítima.
Aquelas anotações noturnas foram meu primeiro ensaio de investigação – mas não de crimes, e sim de mim mesma. Naquele pequeno banheiro de ladrilhos amarelos, cercada de meus companheiros da noite, eu tinha voz própria, acolhimento e o respeito que me faltava pela singularidade de menina fora da roda.
Minha leitura era intercalada por momentos em que registrava no caderninho reflexões sobre a vida fora da fantasia, as descobertas reais sobre mim e sobre os outros participantes do duelo entre a inocência da infância e a impiedade da adolescência… enigmas que nem Miss Marple, com sua clarividência própria de uma mulher, conseguiria decifrar.
Esse diário foi a porta de entrada para (muitas décadas mais tarde) me aventurar pela escrita criativa, refugiada em um outro espaço ladrilhado que foi o isolamento durante a Pandemia.
Fui buscar lá no fundo minha veia investigativa para me dedicar aos contos de ficção, deixando sempre uma porta aberta no final dos textos para que o leitor pudesse fazer a suas próprias descobertas. Não é por menos que o meu primeiro livro de contos, se chama “Conto ou não conto”. Tenho certeza de que Miss Marple gostaria desse título.





























