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Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

Prostituição maternal

Independentemente da razão, muitas mulheres acabam por ter filhos com pais diferentes em busca do amor

Querido leitor, querida leitora, olá!

Hoje quero tratar de um assunto extremamente sensível para muitas mulheres, famílias e não só. Mas hoje trarei apenas a versão — ou melhor, o ponto de vista — feminino.

São várias as mulheres que, por razões diversas, acabam por ter filhos com pais diferentes. Olhando para uma perspectiva moderna, isso nem é um problema ou tabu, principalmente na Europa, nas Américas, etc. Mas aqui em África… Jesus… essa situação ainda é extremamente terrível, infelizmente, até aos dias de hoje.

Independentemente da razão, muitas mulheres acabam por ter filhos com pais diferentes em busca do amor. Sim, parece estranho, mas é verdade. Elas entram num relacionamento na fé e esperança de que seja o único e para a vida toda e, infelizmente, nem sempre dá certo. Separam-se na esperança de encontrar um novo amor — e nem sempre com a vontade ou a ânsia de ter outro ou outros filhos — mas a dinâmica da relação acaba por colocá-las nessa situação.

Imagem de freepik

E isso acontece aqui, precisamente no meu país, sendo olhado de forma muito negativa. Começa, muitas vezes, pelos pais dessas mulheres, onde a filha, ao voltar para casa e encontrar um novo amor, é aconselhada (ou coagida) a deixar os frutos do amor passado com os avós e partir para uma nova aventura.

Em cenários ainda piores — e mais comuns — o futuro amor coloca-a contra a parede, destacando que só ficará com ela se for sem filhos. Será que já tentaram perceber a dor dessa mãe, de ter que ser julgada e abandonar os filhos por amor?

Muitas acabam em quatro situações: algumas preferem desistir desse novo amor e procurar alguém que as aceite por completo. Outras simplesmente determinam que “morrem solteiras”, por não quererem ficar nessa situação entre a espada e a parede. Outras ainda assumem o compromisso, arrependem-se depois, mas nada fazem e avançam tentando, posteriormente, remendar o dano da ausência na vida dessas crianças. E, por último — e mais grave — há aquelas que abandonam os filhos, deixando esses frutos à sua sorte, e vão viver esse tal novo amor.

Não estamos aqui para julgar ninguém. Mas é uma decisão dura — e não acho justo colocar uma mulher nessa situação. Imaginem: nove meses a gerar vida… para depois aparecer um homem que diz respeitar a mãe tanto quanto outras mulheres, mas entra na vida dessa mulher para a dilacerar.

Filho é parte da mulher. Não tem como desfazer um filho nascido. Não tem como apagar. Mesmo as mulheres que dizem que não se importam e que está tudo bem — é mentira, acredita. No fundo, elas sentem a dor do abandono (exceto em algumas situações extraordinárias). Mas preferem conformar-se, acreditando que está tudo bem… mas como pode estar? A mãe a comer picanha enquanto o filho… só Deus sabe.

Imagem de freepik

Sejamos mais empáticos com as mulheres que têm filhos de pais diferentes. E homens, não entrem na vida de uma mulher com filhos apenas querendo a mulher e ignorando o facto de ela já ser mãe — como se fosse possível apagar essa realidade e depois terem filhos juntos como se fosse a primeira vez. Não… está errado.

A maioria das mulheres não quer isso, mas são coisas da vida que nem sempre podemos controlar ou negar. Infelizmente, aqui em Moçambique, essa é uma discussão que ainda tem muito pano para manga. A mulher com filhos muitas vezes é rejeitada. Outras acabam por se sujeitar ao papel de amante por estarem fartas de “nãos” ou por acreditarem que não são dignas de ter um marido.

Porque amigos, familiares — e até o próprio homem — dificilmente a aceitarão por já ter “quilometragem a mais”, como popularmente se diz. Ou pior: por não quererem iniciar um jogo (neste caso, o relacionamento) já em desvantagem, onde a mulher já está “a ganhar” e o homem começa “a zero”. Até mesmo homens com filhos julgam mulheres com filhos de outras relações, rejeitando-as abertamente.

O resultado? Várias mulheres a prenderem-se em relações por causa dos filhos, com medo de serem rejeitadas posteriormente. E ainda há aqueles que dizem: “Quem vai querer-te? Já tens filhos… homem nenhum vai querer-te.”

São palavras duras — palavras que já deveriam ter parado lá no passado, mas… Permitam que as mulheres sejam mães, independentemente de tudo, e deixemos que a maternidade siga o seu curso naturalmente.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança
Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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