Folhear álbuns de fotografias antigas — em papel ou digitais — tem me causado um certo estranhamento. Como se nada ali fosse exatamente como eu lembrava.
Na foto do meu aniversário de 15 anos, o vestido que me fez sentir uma princesa hoje mais parece um tule de cobrir bolo. Fico olhando e pensando: fui mesmo eu que escolhi aquilo?
Na varanda da casa onde morei com meus filhos pequenos — e que, na minha memória, parecia abraçar o mundo —, a imagem revela um espaço onde mal cabem quatro cadeiras. E nenhuma delas lembra os móveis charmosos que eu juro que existiam.
O bolo de aniversário, então. Cobertura de chocolate, velas acesas, brilho de festa. Na foto, seco. Quase tímido. Pequeno demais para a importância daquele dia.
Por um tempo, culpei as imagens. A luz errada, o ângulo ruim, o acaso pouco generoso.
Até perceber que não eram elas que falhavam.
Era a minha memória — essa lente afetiva — que havia feito o seu trabalho com zelo excessivo.
Porque o que ficou em mim não foi exatamente o que se via.
Foi o olhar que me fez bonita naquele vestido.
O som das risadas que ampliava a varanda.
O gosto do chocolate misturado a um beijo, ainda morno, depois do parabéns.
Nada disso caberia numa fotografia.
E talvez nem devesse.
Hoje, quando as imagens me parecem menores do que as lembranças, já não estranho tanto.
Desconfio um pouco das fotos.
E confio mais em mim.
Porque, no fim das contas, a memória pode até exagerar — mas é, sem dúvida, o mais generoso dos retratistas.






























