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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

Retrato impreciso

Mulher de véu sobre os olhos, pintada em guache com a técnica chiaroscuro. Ilustração por Ana Helena Reis

Hoje, quando as imagens me parecem menores do que as lembranças, já não estranho tanto

Folhear álbuns de fotografias antigas — em papel ou digitais — tem me causado um certo estranhamento. Como se nada ali fosse exatamente como eu lembrava.

Na foto do meu aniversário de 15 anos, o vestido que me fez sentir uma princesa hoje mais parece um tule de cobrir bolo. Fico olhando e pensando: fui mesmo eu que escolhi aquilo?

Na varanda da casa onde morei com meus filhos pequenos — e que, na minha memória, parecia abraçar o mundo —, a imagem revela um espaço onde mal cabem quatro cadeiras. E nenhuma delas lembra os móveis charmosos que eu juro que existiam.

O bolo de aniversário, então. Cobertura de chocolate, velas acesas, brilho de festa. Na foto, seco. Quase tímido. Pequeno demais para a importância daquele dia.

Por um tempo, culpei as imagens. A luz errada, o ângulo ruim, o acaso pouco generoso.

Até perceber que não eram elas que falhavam.

Era a minha memória — essa lente afetiva — que havia feito o seu trabalho com zelo excessivo.

Porque o que ficou em mim não foi exatamente o que se via.

Foi o olhar que me fez bonita naquele vestido.

O som das risadas que ampliava a varanda.

O gosto do chocolate misturado a um beijo, ainda morno, depois do parabéns.

Nada disso caberia numa fotografia.

E talvez nem devesse.

Hoje, quando as imagens me parecem menores do que as lembranças, já não estranho tanto.

Desconfio um pouco das fotos.

E confio mais em mim.

Porque, no fim das contas, a memória pode até exagerar — mas é, sem dúvida, o mais generoso dos retratistas.

Imagem de rawpixel.com no Freepik

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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