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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

Atenção: 30 segundos

Desenho à lápis HD sobre papel Canson por Ana Helena Reis

Viramos pop-ups humanos

– Corta!

– Como assim, nem comecei a falar, estava somente na introdução!

– Minha querida, a fala é de 30 segundos, isso não tinha ficado claro para você?

– Você falou, mas veja bem, como posso apresentar personagens, ambientação, conflito, desenvolvimento e ainda deixar um final aberto, espremida por essa ampulheta? Você já calculou quantas palavras conseguimos falar nesse espaço de tempo?

– Sim, temos isso muito claro – são 55 a 65 palavras – é muuuuita fala, pode crer.

Achou estranho? Pois é, caro leitor, agora a comunicação, seja escrita, oral ou por qualquer outro meio está se reduzindo ao que as pessoas conseguem assimilar, ou mesmo aguentar antes de pular para outra coisa que roubou a atenção.

Viramos pop-ups humanos: abre uma janela, fecha outra, pula para a próxima. Se a informação não estiver ali, naquela fração mínima de tempo, passa despercebida.

Vamos ser sinceros, todos participamos de grupos de WhatsApp. Quem ainda não recebeu aqueles textos enormes, ou vídeos longuíssimos e simplesmente ignorou, ou no máximo iniciou e logo desistiu? Convenhamos, eles podem ser até interessantes, mas…

Viver no mundo contemporâneo implica em administrar as horas produtivas e de entretenimento para tirar delas o melhor proveito. Nesse mercado competitivo da informação, seja para entretenimento, socialização ou trabalho, até nossa atenção entrou na lógica do custo-benefício.

Assim sendo, nossa escritora que queria contar seu conto vai ter que dar piruetas para transformar tudo o que queria entregar, em no máximo 60 palavras. Será que ela consegue?

Eu, aqui nesse texto, já gastei 283 palavras…

Mas, como aprendi a lição, aqui vai o texto com 60 palavras somente – me digam se consegui ou não passar a mensagem toda.

Querem histórias em 30 segundos. Sessenta palavras bastam, dizem. Personagens, conflito, emoção e final precisam caber entre um scroll e outro. Nossa atenção virou pop-up: abre, pisca, desaparece. Textos longos morrem no WhatsApp sem sequer serem concluídos. No mercado da pressa, vence quem entrega mais sentido em menos tempo. Inclusive esta crônica, que talvez você já tenha abandonado antes daqui.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.
Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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