Por Paulo Maia
Caro leitor e querida leitora, se você tem acompanhado o vaivém do noticiário e o aquecimento das turbinas para as eleições presidenciais deste ano, já deve ter sentido o cheiro nauseabundo no ar. O ambiente político brasileiro começou a desenhar aquela velha e perigosa coreografia feita de narrativas violentas e ataques desmedidos, que nos últimos tempos retomaram covardemente um alvo preferencial: as mulheres.
Depoimentos de que mulheres não sabem votar, ou de que programas sociais do governo devem ser revistos para atender apenas a homens — supostamente por “saberem mais das coisas” —, são de uma abjeção que provoca náuseas. Escutar ainda, de um neto de uma das figuras que representaram a ditadura em nossa recente (e triste) história brasileira, de que o feminismo é “coisa de marxista” revela um analfabetismo e uma ignorância de doer.
São figuras que nos dão a nítida impressão de que vivem no esgoto da humanidade. Assistir a esses eventos recentes, disparados por aqueles que compõem a chamada classe política de nossa sociedade, nos dá a incômoda certeza de que o ódio virou uma ferramenta que hoje incorpora discurso, comportamento e — o elemento mais importante — promessa de governo, mostrando-se o produto mais eficiente do mercado.

No entanto, o erro mais ingênuo que podemos cometer é acreditar que o horror nasce espontaneamente do palanque. O ódio contemporâneo não é um impulso passional e desordenado; ele é técnico, planejado e executado com uma eficiência quase cirúrgica. Ele usa terno, crachá e bate meta.
Recentemente, assistindo a uma provocativa discussão no programa Linhas Cruzadas, da TV Cultura, vi o filósofo Luiz Felipe Pondé e a jornalista Thais Oyama dissecarem a natureza do Mal. O debate inevitavelmente desaguou na tese clássica de Hannah Arendt sobre o julgamento do nazista Adolf Eichmann e a sua “Banalidade do Mal”. Eichmann, afinal, não era um monstro de filme de terror; era um burocrata medíocre que dormia em paz porque apenas organizava horários de trens e cumpria ordens dentro de um sistema legalizado. Ele terceirizou a sua consciência para o procedimento padrão.
Se trazermos essa escala de violência para o nosso cotidiano de gravata, o mecanismo é rigorosamente o mesmo. Pense no executivo que, numa terça-feira ensolarada, assina a demissão de setecentas pessoas para ajustar o fluxo de caixa às exigências do mercado financeiro. Do ponto de vista técnico e corporativo, a ação é impecável, lógica e perfeitamente aceitável. No entanto, na crueza do mundo real, a canetada gera um rastro invisível de desespero financeiro, casamentos desfeitos e adoecimento psíquico. O executivo não odeia aquelas famílias; ele apenas opera a planilha. O mal acontece no silêncio da abstração técnica.

É aqui que tropeçamos na ironia mais cruel descrita pelo historiador Yuval Noah Harari na obra Sapiens. Nossa espécie só dominou o planeta porque aprendeu a virtude única de colaborar em larga escala entre estranhos. Criamos a civilização baseados nessa capacidade de somar esforços por um objetivo comum. O paradoxo insolúvel da nossa existência é que as maiores tragédias da história também exigiram uma colaboração impecável. As máquinas de triturar reputações na internet, as milícias digitais e as narrativas violentas das campanhas eleitorais de 2026 só funcionam porque milhares de pessoas ditas “de bem” colaboram metodicamente, compartilhando um link aqui, criando um meme acolá e batendo metas de engajamento ali.
As ciências biológicas e sociais explicam que o ódio é a ferramenta mais primitiva para gerar coesão de grupo. Fomos programados para o tribalismo do “nós contra eles”. Mas quando a política profissionaliza esse instinto e o transforma em procedimento operacional padrão, a responsabilidade individual dilui-se na massa. É o conforto anestésico de dizer: “Estou apenas fazendo o meu trabalho”, ou “Estou apenas seguindo a linha editorial do meu partido”.

Será tentador e excessivamente romântico terminar esta reflexão apontando uma saída luminosa, um apelo à virtude que magicamente dissolvesse a nossa engrenagem. A realidade, contudo, é muito menos dócil. A vida nos coloca diante de dilemas onde a sobrevivência — seja ela física, financeira ou política — aciona o nosso lado mais arcaico. Afinal, por baixo do verniz da civilidade, ainda guardamos o instinto do animal.
Diante de uma caça que representa o sustento dos seus, não há espaço real para a compaixão; hesitar em abater a presa significa decretar a própria fome. Há a célebre ironia do caçador que, impelido a buscar alimento, sente piedade da caça e a deixa fugir, apenas para, ao final do dia, ser ele mesmo devorado por um predador na floresta. Diante da ameaça real de aniquilação ou perda, a compaixão para com o outro pode significar a crueldade para conosco. Não há uma fórmula harmoniosa que faça essa equação funcionar. Carregamos uma contradição terrível e irremediável no nosso próprio ser: uma natureza consciente que é capaz de reconhecer o sofrimento alheio, mas que é biologicamente impelida à autopreservação a qualquer custo.
O mal-estar da nossa civilização está justamente no fato de que, para sobreviver e manter as nossas estruturas, frequentemente damos passos que resultam em pequenas ou grandes catástrofes sociais, mesmo cientes do estrago. No grande teatro deste ano eleitoral, a verdadeira La Dolce Vita talvez não seja a ilusão de uma pureza intocável, mas a coragem melancólica de encarar esse espelho partido — aceitando que o mal-estar está instalado em nossa condição e que o nosso destino trágico é aprender a conviver com as próprias fraturas, sem o anestésico das respostas fáceis.

Mas, ainda assim, voltando ao desmedido discurso de violência contra as mulheres por ideologias inclinadas ao extremo — tendo como lastro profundo o ódio —, deveríamos nos perguntar: onde estão aqueles que deveriam se revoltar com isso? Então, sem nenhuma surpresa, descobrimos que muitos (e muitas) estão acenando positivamente com tais falas absurdas, justamente por conta de seu instinto primal de sobrevivência. Há quem diga que alguns se sentem envergonhados, sim, mas a conivência silenciosa é o esconderijo dos covardes.
Muitos se perguntam filosoficamente se a dignidade realmente tem um preço. Estes, a quem critico, sabem que tem. Basta chegar no valor adequado.
Lamentável!






























