Skip to content

O dia em que tirei o pé do acelerador

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

O que isso me ensinou sobre decisões

Por Rafael Guimarães Pereira

Em 2016, eu tinha acabado de voltar a morar no Brasil. Passei anos na Alemanha e agora estávamos de volta a São Paulo — minha esposa, nossos filhos pequenos e eu, todos nos reinventando em uma cidade que, para mim, já era quase estranha.

Mas tinha uma ideia que não me largava.

Eu queria criar uma plataforma de conversão de carros a combustão para elétricos. Não fabricar carros — converter os que já existiam. A proposta era simples: maior eficiência energética, manutenção mais barata e menor emissão de poluentes. A ideia não era nova no mundo, mas, no Brasil, era território inexplorado. Havia um sujeito que tinha feito uma Fiorino elétrica. Outro, um BR800. Na Europa e nos EUA, alguns poucos projetos espalhados. Pesquisei tudo. Falei com dezenas de pessoas, a maioria engenheiros.

Mobilizei amigos. Convidei um sócio — que já era meu parceiro em outros negócios. Dividimos as tarefas: ele comprou o carro. Eu comprei todas as peças, à distância. Cheguei a ir uma vez a Porto Alegre tocar o projeto.

E então… tirei o pé do acelerador.

Não foi uma decisão consciente. Não foi um “desisti”. Foi mais sutil — e mais perigoso do que isso. A vida louca de São Paulo foi ocupando o espaço. Crianças se adaptando, trabalho, compromissos. Aos poucos, as peças foram virando peso. As reuniões ficaram escassas. Até que minha ausência virou fato consumado.

O projeto morreu. E só anos depois entendi o verdadeiro preço daquela omissão.

Meu sócio e amigo acabou se afastando. Por uma década, aquelas peças compradas por mim ficaram na casa dele, incomodando. Só dez anos depois fiquei sabendo. Providenciei tirá-las de lá e as doei para outro amigo que realmente queria aquilo.

Não perdi dinheiro. Perdi algo pior: uma amizade.

Os maiores prejuízos da decidofobia não são financeiros. São de relacionamento.                                                                                                                                         

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

O problema que ninguém nomeia

Em algum lugar daquele processo, eu precisei tomar uma decisão: isso está alinhado com meu propósito ou é apenas um projeto brilhante que me seduziu? Estou comprometido de verdade ou só entusiasmado na superfície?

Eu não tomei essa decisão. E não tomar também é uma decisão — só que tomada por omissão.

A maioria das pessoas acredita que o maior inimigo da decisão é a indecisão paralisante. Mas existe um problema mais sofisticado: a decisão que a gente toma contra si mesmo, sem perceber.

Na liderologia, chamamos de decidofobia — o medo crônico de decidir. E ele se manifesta de formas que, isoladamente, parecem perfeitamente razoáveis:

Decidir rápido demais para escapar da dor

Quando o processo decisório começa a doer — porque mexe com valores, identidade, medo —, a tentação é resolver logo, de qualquer jeito, apenas para sair do desconforto. O problema: uma decisão prematura, sem maturação, costuma ser uma decisão da qual você vai se arrepender.

Engavetar o problema

Outra saída aparentemente inteligente: não decidir agora, deixar para depois. Só que o problema não some. Ele cresce silenciosamente. E, quando você finalmente é forçado a agir, o cenário é pior.

Decidir pela pressão do grupo

Quando a referência para a decisão não são seus valores pessoais, mas o que o ambiente espera de você, o resultado é previsível: uma decisão que parece certa para os outros, mas errada para você. E isso sempre volta.

Terceirizar o que só você pode decidir. Empurrar para outra pessoa uma decisão que é sua — seja um sócio, um mentor ou o destino. É uma forma elegante de se eximir. O problema: a conta chega. Com juros.

Perder o timing

A maioria das decisões tem janela. Timing muito curto gera decisão pobre. Timing longo demais gera oportunidade perdida. E o pior: muitas vezes a gente sabe qual é o timing certo — e, mesmo assim, não age.

Virar tarefeiro

Quando não consegue decidir o que entra na vida, a pessoa deixa tudo entrar. Enche a agenda, acumula compromissos, vira refém da própria ocupação. É uma forma sofisticada de não decidir: se estou ocupado demais, não preciso escolher.

Não conseguir escolher entre coisas boas

Talvez o mais difícil de todos. Quando todas as opções parecem válidas, quando tudo faz sentido, como escolher? A resposta está embaixo da superfície: propósito e valores pessoais. Sem essa clareza, qualquer escolha parece certa — e qualquer escolha parece errada.

No caso do carro elétrico, eu errei em pelo menos três desses pontos: me enchi de atividades, perdi o timing e terceirizei para a vida o que eu mesmo precisava resolver.

A profilaxia: decidir como processo, não como evento

A primeira mudança de mentalidade é esta: decisão não é um ato. É um processo.

Não existe o momento mágico em que tudo clareia. Existe um caminho — e ele começa muito antes da decisão em si.

Se envolver com menos

Essencialismo não é fazer mais com menos. É fazer apenas o que realmente importa. Quando você reduz o número de projetos e atividades ao que está genuinamente alinhado com seu propósito, algo interessante acontece: menos decisões para tomar, e as que restam ficam mais claras.

Não é sobre produtividade. É sobre eliminar o trivial para enxergar o essencial.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Clareza de singularidade, propósito e valores

Três perguntas que sustentam qualquer decisão qualificada:

Quem eu sou de fato? (singularidade)

Para onde estou direcionando minha vida? (propósito pessoal)

O que é inegociável para mim? (valores pessoais ligados à autocosmoética)

Sem respostas claras, qualquer decisão é uma aposta. Com respostas claras, a decisão deixa de ser um salto no escuro e passa a ser um passo em direção conhecida.

Técnicas que ampliam a clareza

Três práticas que utilizo e recomendo:

Técnica da madrugada

Estabelecer previamente uma intenção de assistência com seu amparador — a consciência extrafísica que assiste você — e aplicar a técnica por pelo menos cinco noites. Acordar naturalmente, sem despertador, no meio da madrugada. Ir para um local tranquilo. Trabalhar as energias. Colocar a decisão em pauta. Registrar com papel branco e lápis. Após cinco a sete noites, o ganho em visão de conjunto é significativo. A decisão não surge pronta — mas o caminho fica mais nítido.

Técnica da autorreflexão de cinco horas

Recolher-se em um aposento tranquilo, sem interrupções, por cinco horas. Iniciar com o trabalho das energias. Permanecer em silêncio, observando os pensamentos sem registrá-los durante a prática. Anotar somente ao final. É desconfortável. Mas o nível de clareza que emerge de cinco horas de autoencontro não tem paralelo com qualquer reunião de planejamento.

Técnica do diário

Apontar diariamente os fatos, os pensenes — pensamentos, sentimentos e energias. Aos poucos, o registro revela padrões. Você começa a perceber quando está se escondendo, quando está decidindo por pressão, quando está perdendo o timing. O diário vira um espelho. E o espelho não mente.

O que 10 anos me ensinaram

Levou uma década para eu completar o ciclo daquela decisão mal resolvida.

As peças que eu comprei para o projeto do carro elétrico ficaram na casa do meu ex-sócio por dez anos. Ele guardou. Não usou. Não descartou. Aquilo incomodou o tempo inteiro. Quando finalmente soube — por terceira pessoa —, agi: tirei as peças de lá e as doei para outro amigo que tinha condições e vontade de tocar algo parecido.

Mas o projeto já era. A amizade nunca mais foi a mesma.

Esse episódio me ensinou algo que nenhum MBA ensinou: o custo da omissão é invisível, mas destrói vínculos.

Não vê quem perde. Não contabiliza quem se afasta. Não mede o crescimento que não aconteceu. A decidofobia é um ladrão silencioso — e o que ela rouba não é dinheiro. É relacionamento, é oportunidade de evolução, é confiança.

Hoje, quando percebo que estou adiando uma decisão importante, faço uma pergunta simples: Estou esperando mais informação — ou estou me escondendo?

A resposta, quase sempre, é libertadora. Porque ela me devolve o único poder que realmente tenho: o de decidir, com lucidez, no meu próprio nome.

E talvez essa seja a forma mais honesta de autoliderança: não a que acerta sempre, mas a que se recusa a se esconder.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Rafael Guimarães Pereira é doutor em Química, empreendedor e pesquisador da liderança. Atua na interface entre ciência, inovação e desenvolvimento humano, com foco em autoliderança e formação de líderes. É casado, pai, cofundador da LIDERARE e voluntário dessa instituição e da ECTOLAB.

Colaboração da pauta:

Demais Publicações

O que ainda define a experiência humana?

Estamos perdendo memória à medida em que dependemos cada vez mais da tecnologia e delegamos a ela até o nosso direito de pensar?

Cansaço, insônia, irritabilidade e queda da libido: será que a culpa é da redução do estrogênio?

Ginecologista explica os sinais da queda hormonal e destaca a importância do acompanhamento médico para preservar a saúde e a qualidade de vida da mulher

Einstein abre inscrições para vestibular unificado com vagas em oito cursos de graduação

Processo seletivo para ingresso no primeiro semestre de 2027 recebe inscrições até 20 de setembro; provas serão aplicadas em outubro

A cláusula de exclusão

Não há pior impostura do que cumprir perfeitamente todos os deveres; aquele que nunca decepciona o mundo acaba por se tornar um estranho para si mesmo

O veneno da tua língua

Nunca conseguiremos conquistar um verdadeiro espaço de visibilidade e respeito na sociedade enquanto nós mesmas não nos valorizarmos

O que realmente faz alguém prosperar?

No lançamento "O Velho Sábio", empresário e escritor Manassés Carloto mostra que a verdadeira riqueza não está em acumular

Quando ninguém está a olhar

A fidelidade não começa quando dizemos "não" à tentação; começa muito antes, nas pequenas escolhas que ninguém vê

Ema, ema, ema cada um com seus problemas

Nossos problemas individuais sempre se sobrepondo aos dos outros, como se não houvesse espaço para mais nada

Turismo dos castelos menos conhecidos da Europa

Espalhados por diferentes países do continente, existem inúmeros castelos menos conhecidos que guardam histórias fascinantes, paisagens encantadoras e uma atmosfera muito mais tranquila

Painel Dolce Morumbi

As Mais lidas da Semana

Publicidade Dolce Morumbi

arte-painel-dolce-cantiga-crianca_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
arte-painel-dolce-abtours_1_11zon
PlayPause
previous arrow
next arrow
Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

Seções