Quando somos pequenos, em muitas famílias (sim, até mesmo cá em Moçambique), somos levados a amar ou adorar certos deuses, religiões e crenças, sem aviso, sem questionamento, sem permissão. Apenas recebemos uma única informação: “Nesta família as coisas são assim e, se quiseres escolher algo diferente, que o faças na tua casa.”
Claro que esse discurso serve para muitas situações, mas quando se trata de questões religiosas e espirituais, a coisa muda de figura — e fica mesmo tensa.
E é aí que vemos crianças de ontem e adultos de hoje incompreendidos, vivendo crenças com as quais pouco se identificam, lutando consigo mesmos sem perceber o que deve ser alterado ou abandonado. Vivem num mundo (para os que se permitem) repleto de descobertas que acabam sendo, obrigatoriamente, vistas como pecadoras.
Imagine, caro leitor e leitora, a situação da mulher que cresceu vestindo apenas saias porque, de acordo com a sua religião, apenas o homem deve vestir calças — e, se a mulher ousar contrariar, estará a pecar da forma mais grave possível.

Ou situações em que o crente acredita que, em um dia específico, independentemente de ter ou não trabalho, o sábado deve ser entregue exclusivamente ao Divino Criador. Dependendo da sua escolha profissional, tudo desmorona, pois o patronato pouco entende de crenças religiosas — apenas de produzir. E esse crente vê-se numa encruzilhada: assumir que algumas coisas são diferentes e estão acima das suas crenças ou apegar-se a elas e ter todos os seus sábados descontados do salário.
Mais ainda: situações em que um dos filhos crentes desenvolve uma orientação sexual diferente do que é aceitável na sociedade e, acima de tudo, na sua religião. Acaba por esconder-se, vivendo em conflito, chegando ao ponto de casar, formar família, mas exercendo aquilo que considera pecado nas sombras. Ou, de forma ainda mais contraditória, aquele crente que comete adultério, mesmo sabendo que é pecado, e finge que nada acontece.
A pergunta que surge é: o problema está na pessoa, no seu carácter, ou nas crenças que lhe foram impostas cedo demais, ao ponto de, na fase adulta, se distorcer e envergar para o fracasso?
A verdade é uma — e já me desculpo, caso esteja a ferir alguma sensibilidade (nada contra as religiões e as suas crenças). Contudo, acredito que impor, desde tenra idade, uma forma rígida de viver e crer, baseada exclusivamente na religiosidade, pode criar barreiras e limitar a criança — e o adulto de amanhã — na percepção do mundo real e cru. Isso pode dificultar o discernimento sobre o que escolher, quando escolher e até como se adaptar aos paradigmas sociais e às suas constantes transformações.

Entenda: não digo que não devemos ensinar religiosidade às crianças. Digo, sim, que devemos permitir que escolham, no futuro, onde se querem converter e por quê. Que cresçam conhecendo as nossas crenças, mas sem se vincularem totalmente a elas. Que possam explorar, questionar e conhecer outras formas de ver a religiosidade e a espiritualidade.
E isso não significa abandonar ou desrespeitar as crenças dos seus progenitores — de forma alguma. Significa aprender a compreender antes de decidir, pois essas decisões podem impactar profundamente toda a sua estrutura familiar.
A espiritualidade e a religiosidade são fatores extremamente importantes na construção de um adulto. Mas uma escolha precipitada — ou imposta — pode deixar marcas ao longo da sua jornada.
Permitam que as vossas crianças escolham o seu destino espiritual.




























