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Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

A fraqueza da minha Síndrome de Estocolmo

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Quantos vivem em relações tóxicas e abusivas e, ainda assim, encontram justificativas para permanecer nelas?

Querido leitor e querida leitora!

Neste momento, deves estar a pensar que estou a entrar num mar desconhecido, onde até a psicologia luta para identificar a linha ténue que existe neste processo.

Mas, antes de me debruçar sobre o motivo da minha escolha em trazer este tema, vamos compreender o seu significado.

A Síndrome de Estocolmo é um fenómeno psicológico em que uma pessoa desenvolve sentimentos positivos, empatia ou até afeto por alguém que a mantém numa situação de ameaça, controlo ou abuso.

Agora pergunto-te: será que não estás a viver isso?

Muitos de nós associamos esta síndrome apenas a pessoas sequestradas ou a situações extremas de abuso. Mas quantos de nós vivemos relacionamentos assim? Vou falar especificamente das relações amorosas, porque as familiares são mais complexas de enquadrar nesta perspetiva.

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Quantos vivem em relações tóxicas e abusivas e, ainda assim, encontram justificações para permanecer nelas?

“Ah, ele bateu-me porque eu provoquei.”

“Ah, ela foi bruta comigo porque eu não soube tratá-la bem.”

“Ah, ele trancou-me e partiu-me o braço porque estava nervoso.”

“Ela atirou-me o telefone à cara porque descobriu uma traição.”

São tantas justificações que, no fim, a pergunta continua a ser a mesma: procuraste ajuda? A outra pessoa procurou ajuda? Tentou mudar? Tentou corrigir os seus comportamentos?

Porque, quando alguém realmente reconhece um erro isolado, procura redimir-se. Procura reconstruir a confiança, limpar a imagem tóxica que criou e tornar-se uma pessoa melhor.

Mas isso aconteceu?

Ou continuas apenas a colecionar justificativas para permanecer nessa prisão emocional?

Nessa Síndrome de Estocolmo silenciosa, onde o abuso se transforma no pão de cada dia e o perdão se torna tão raro quanto uma chuva de diamantes numa noite de lua cheia.

Tu podes ser melhor.

Tu podes libertar-te.

Mas compreendo que sozinho seja difícil.

Por isso, permite que te ajudem.

Porque mais do que tu sofreres nessa prisão emocional e mental, existem pessoas à tua volta que te amam profundamente e que desejam ver-te florescer. Contudo, permaneces nesse quadrado familiar, previsível e confortável, mesmo que ele te destrua aos poucos.

A mudança dói.

Mas dói muito mais desperdiçar anos de vida, anos de glória, anos em que os teus pulmões ainda respiram e o teu coração ainda pode sonhar.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

E sabes quem mais sofre as consequências dessa síndrome? Os filhos.

Inocentes. Sem domínio da própria mente. Sem compreender os perigos de crescer alimentados por exemplos de medo, submissão e sofrimento.

Eles herdarão a tua dificuldade em impor limites.

Herdarão o teu medo de agir quando necessário.

Herdarão a tendência de permanecer em relações tóxicas, abusivas e emocionalmente insalubres.

E, um dia, poderás olhar para os teus filhos e netos, mais tristes e frustrados do que tu foste, e perguntar a Deus: onde foi que eu errei?

E talvez a resposta esteja nas oportunidades que ignoraste.

Porque Deus dá discernimento. Dá sinais. Dá caminhos.

Mas a escolha continua a ser nossa.

A salvação é individual.

E, quando escolhemos permanecer onde somos destruídos, assumimos também uma parte da responsabilidade pelas marcas que deixamos nas gerações seguintes.

Será isso que queres?

Então, querido leitor, se não conseguires fazer por ti, faz pela tua geração.

Faz pelos filhos que te observam em silêncio.

Faz pelos netos que ainda nem nasceram.

Faz por todos aqueles que merecem herdar coragem em vez de medo.

Porque quem ama não aprisiona.

O amor pode magoar.

Mas nunca deveria doer.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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