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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

O elevador social

[ Ilustração feita em tinta guache sobre papel Canson por Ana Helena Reis ]

Suspeito de que a verdadeira função dos elevadores seja a de medir diariamente a quantidade de paciência que ainda nos resta

Severo aperta o botão do elevador e espera. Na botoeira, apenas um risquinho vermelho. O painel está com defeito há semanas, mas o síndico ainda não descobriu que manutenção também faz parte da administração de um condomínio.

Ele encosta o ouvido na porta para tentar identificar algum movimento, aquele abre e fecha que anuncia sua aproximação. Percebe que o elevador já parou em mais de um andar. Está subindo? Descendo? Impossível saber.

O elevador para em algum lugar e nenhum barulho de movimentação – o risquinho vermelho continua ali, sinal de que ele não chegou ainda ao seu andar. Quem será que está segurando a porta aberta?

Finalmente, passados alguns infindáveis minutos, a luz da botoeira caolha se apaga e ele consegue abrir a porta. Severo engole o bufo e entra para iniciar sua excursão até o andar térreo. Sim, uma excursão, porque o elevador vai parando de andar em andar, gracinha de alguma criança — pelo menos Severo torce para que tenha sido uma criança, e não um adulto com TOC.

O elevador para no quinto andar. Surge o casal de idosos com um chihuahua do tamanho de uma meia de bebê, escondido no colo. O regulamento do condomínio proíbe animais no elevador social, mas talvez exista uma cláusula de exceção para criaturas que pesem menos que um pacote de pão de forma.

O chihuahua rosna – uma ameaça velada à sua possível denúncia sobre a infração – e a porta se fecha. Engaiolado, Severo ouve somente a respiração pesada do casal, como se estivessem ensaiando para tocar acordeão. Pela sonoridade da respiração, Severo conclui que ambos estão incubando alguma doença respiratória inédita. Reza apenas para que não resolvam puxar conversa.

Severo já está a um suspiro de explodir.

O elevador finalmente chega ao térreo. A porta abre e três pessoas entram antes mesmo que o casal do chihuahua consiga sair. Uma delas aperta o botão do oitavo andar.

Severo olha para o painel. Olha para o teto. Suspira.

Só naquele instante se lembra de que descera apenas para buscar a carteira esquecida no carro.

Então aperta também o botão do seu andar.

Todo o sofrimento vivido até ali tinha sido apenas a viagem de ida.

Talvez seja essa a verdadeira função dos elevadores: não nos levar de um andar a outro, mas medir diariamente a quantidade de paciência que ainda nos resta.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.
Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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