Por Paulo Maia
Eu dividia um apartamento com mais dois amigos ali pela segunda metade dos anos 90. Vivíamos o que eu costumo chamar de uma adolescência tardia. Digo isso porque já não éramos tão jovens assim; estávamos bem próximos dos trinta anos, mas, todos solteiros, mantínhamos o hábito de transformar nosso espaço no cenário de reuniões e festas que invadiam a madrugada.
Havia pouco tempo que eu começara a trabalhar em uma multinacional americana com filial no Brasil. Como sempre tive facilidade para fazer novas amizades e agregar pessoas, logo me tornei próximo dos colegas americanos que estavam aqui a trabalho. De vez em quando, eu os convidava para um get together em casa.
Certa vez, decidimos organizar uma festa à fantasia em uma sexta-feira à noite. Fomos espalhando o convite entre os nossos círculos de convivência. A única regra era que cada um trouxesse alguma bebida e que, claro, estivesse fantasiado. Na excitação do momento, sequer paramos para planejar o limite de convidados. Fomos chamando quem aparecia pela frente.
Eu, um dos meus roommates e outros dois colegas de trabalho — um deles, o americano —, decidimos nos fantasiar de Tartarugas Ninjas. Não avisamos ninguém; queríamos o impacto da surpresa. O ponto de encontro para a transformação foi o flat alugado pela empresa onde o americano estava hospedado. Lá mesmo iniciamos o “aquecimento”, bebericando os primeiros copos como preparação para a noite e não podia faltar a pizza! Para quem viu esta séria dos anos 80, sabe da dieta dos super-heróis. E então, saímos.
Já na recepção do flat e ao pisar na calçada, chamamos a atenção de quem passava. Quatro Tartarugas Ninjas cruzando a rua na noite paulistana. Já estávamos no clima, ansiosos para alcançar o meu apartamento.

Ao abrirmos a porta, deparamo-nos com uma multidão vestida com as fantasias mais originais e clássicas que um evento assim pode reunir: as bruxas, o padre, a freira, piratas, Chapolin Colorado, caubóis e cowgirls, monstros, além de tantas outras figuras que a memória hoje guarda vagamente. O som rolava alto e, logo na chegada, arrancamos as cabeças de tartaruga para mergulhar de vez no fervo.
A loucura daquela noite residia em um detalhe geográfico: o apartamento era pequeno. Não tinha muito mais do que 70 metros quadrados, distribuídos em três quartos, sala, cozinha e… um único banheiro. O leitor pode imaginar o caos logístico, mas a verdade é que ninguém se importava. Era festa.
À medida que as horas avançavam, o fluxo de pessoas aumentava. Logo percebemos que o contingente havia superado qualquer previsão. Era o clássico fenômeno de quem é convidado e traz mais três ou quatro amigos consigo. Se ficamos preocupados? Nem por um segundo.
A celebração estendeu-se até as altas horas da madrugada. Houve muita gente de pileque, risadas soltas e uma quantidade considerável de paqueras e amassos entre casais — muitos, inclusive, formados ali mesmo, no calor da pista improvisada. Embora os vizinhos tenham reclamado do barulho, o evento correu sem qualquer desentendimento, violência ou excesso. Havia um pacto silencioso de que o único propósito daquela noite era a diversão e o encontro.
Fui o último a cair na cama, nocauteado pelo cansaço. Ao amanhecer — ou melhor, por volta da hora do almoço —, quando meus dois companheiros de apartamento e eu acordamos, encaramos a real extensão da devastação. A sobriedade do dia seguinte nos deu o vislumbre de um cenário que dava vontade de sair correndo. O chão colava de tanta bebida derramada, o lixo acumulava-se pelos cantos e copos de plástico decoravam os quartos. Pensamos em contratar alguém para nos salvar da limpeza, mas era sábado e não havia alternativa. Armados com uma coragem que não possuíamos e munidos de todo o estoque de desinfetante que conseguimos comprar, passamos o dia limpando o local. Fazíamos isso, contudo, com sorrisos no rosto, relembrando as cenas absurdas das últimas horas.
No início da tarde daquele sábado, os amigos mais íntimos começaram a retornar para as tradicionais reminiscências pós-festa. Essa é uma das partes mais saborosas de um evento assim: sentar-se para cruzar os comentários, ouvir as impressões alheias e descobrir histórias que aconteceram ao nosso lado, mas que não havíamos testemunhado. Eles trouxeram mais bebidas, e passamos o resto do dia ouvindo música e celebrando o eco da noite anterior.

Aquela festa repercutiu por meses. Em um mundo que ainda não conhecia as redes sociais e os smartphones, a publicidade corria “à boca pequena”. Todos comentavam que há muito tempo não iam a uma celebração tão genuína e divertida. Inspirados pelo sucesso, chegamos a realizar outras duas festas à fantasia mais tarde, porém em espaços alugados e apropriados para o tamanho do público — e, embora tenham sido excelentes, nenhuma superou o charme caótico da primeira.
Ainda naquele sábado de reminiscências, enquanto o grupo debatia os episódios engraçados e os inevitáveis momentos constrangedores da noite anterior, a campainha tocou. Ao abrirmos a porta, deparamo-nos com um casal de amigos completamente paramentados: ele de vampiro, ela de donzela. Eles haviam confundido os dias e achavam que a festa aconteceria no sábado, não na sexta-feira.
A gargalhada foi geral. Obviamente, nós os puxamos para dentro, eles integraram-se à roda e, em questão de minutos, uma nova festa ganhou vida.
— Aumenta a música, vou buscar cerveja e petiscos porque a noite vai ser longa! — gritou um dos meus amigos.
Experiências e memórias como essa deixam a certeza reconfortante de que a vida pode e deve ser leve quando se mantém por perto as boas amizades e um espírito livre, pronto para o que der e vier.






























