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A política já não compra tempo: precisa merecer atenção

Planejar presença é planejar percepção.
Imagem feita com ferramentas de inteligência artificial

A disputa eleitoral começa quando alguém decide interromper o movimento automático de deslizar a tela para dedicar alguns segundos a uma mensagem

O trabalho mais difícil de uma campanha talvez já não seja convencer o eleitor, mas sim, conseguir que ele pare para ouvir.

Existe uma pergunta que passei a fazer depois de acompanhar campanhas por dentro: em que momento as equipes deixaram de discutir apenas agenda, discurso e articulação para começar a discutir, com a mesma intensidade, se um vídeo deveria sair às oito da manhã ou às oito da noite? Parece uma mudança pequena. Não é. Ela revela que o centro de gravidade da comunicação política mudou de lugar.

Houve um tempo em que a campanha era organizada em torno de espaços previsíveis. Horário eleitoral, entrevistas, eventos, material impresso. A comunicação seguia um calendário relativamente estável porque o público também consumia informação de forma mais organizada. Hoje, basta uma manhã para o planejamento inteiro precisar ser revisto. Um assunto explode, outro desaparece, uma declaração muda o rumo das conversas e, quando a equipe consegue reagir, o debate já encontrou outro destino. Não foi a política que acelerou. Foi o ambiente onde ela acontece.

A estratégia começa antes da publicação e continua depois dela.
Imagem feita com ferramentas de inteligência artificial

O marketing político trocou de função

A consequência mais interessante dessa mudança não está nas plataformas. Está no papel que o marketing passou a ocupar dentro das campanhas.

Lembro de situações em que uma gravação feita entre um compromisso e outro gerou mais repercussão do que conteúdos produzidos durante dias. Em outras ocasiões, vimos publicações acumularem números impressionantes sem produzir aquilo que realmente importava: conversa nas ruas, presença memorável e percepção de proximidade. Foi aí que ficou evidente uma diferença que quase nunca aparece nos relatórios. Alcance compra visibilidade. Confiança não.

Essa lógica aproxima a política de algo que já aconteceu com empresas. Durante muito tempo, reputação parecia consequência da publicidade. Hoje, ela é construída em dezenas de pequenos contatos. Um executivo publica uma análise, um médico responde dúvidas, um empreendedor mostra bastidores do trabalho. Ninguém decide confiar por causa de uma única postagem. A confiança costuma nascer da repetição coerente.

Com os candidatos acontece algo parecido. A presença digital deixou de servir apenas para anunciar agenda. Ela passou a formar uma impressão contínua sobre quem aquela pessoa é quando não está no palanque. É uma diferença sutil, mas decisiva. O eleitor pode esquecer um slogan. Dificilmente esquece uma impressão construída ao longo de meses.

Outro aprendizado apareceu dentro das próprias equipes. Durante anos, parecia natural medir sucesso pelo volume de pessoas alcançadas. A prática mostrou que essa conta ficou incompleta. Em muitas cidades, quem realmente movimenta uma comunidade não é quem reúne os maiores números nas redes, mas quem acumulou credibilidade suficiente para que sua palavra circule de pessoa para pessoa sem precisar ser impulsionada.

Talvez seja por isso que a inteligência artificial tenha chegado justamente no momento em que confiança se tornou ainda mais valiosa. Nunca foi tão fácil produzir conteúdo. Nunca foi tão difícil produzir algo que pareça verdadeiro. Ferramentas aceleram execução, organizam ideias e economizam horas de trabalho. O julgamento sobre o que merece ser publicado continua dependendo de algo que nenhuma plataforma entrega pronta: leitura de contexto.

No fim das contas, a disputa eleitoral continua terminando na urna, mas começa muito antes dela. Começa quando alguém decide interromper o movimento automático de deslizar a tela para dedicar alguns segundos a uma mensagem. Hoje, esses poucos segundos talvez sejam o ativo mais disputado das campanhas. E, curiosamente, quanto mais gente tenta capturá-los ao mesmo tempo, maior parece ser o valor de quem consegue conquistá-los sem parecer que está tentando.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Arnaldo Reis Figueiredo é executivo de Desenvolvimento de Novos Negócios em Tecnologia da Informação, com ampla experiência em transformação digital e estratégia de TI. Atua como conselheiro da Vollier Mídia e Serviços | @vollier, contribuindo com direcionamento estratégico em tecnologia e posicionamento de marca.
Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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