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Depois dos 60, uma nova carreira: o que tem levado os aposentados ao empreendedorismo?

A aposentadoria está deixando de representar, para uma parcela dos brasileiros, o encerramento da vida profissional. O movimento acompanha uma mudança no perfil do empreendedorismo entre os brasileiros mais experientes. Pela primeira vez, a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2025, realizada no Brasil pelo Sebrae em parceria com a Anegepe, incluiu a faixa etária de 65 a 74 anos. O levantamento mostrou que quase 63% dos empreendedores nessa faixa começaram seus negócios por oportunidade, enquanto 32,5% empreenderam por necessidade.

O cenário é diferente entre os brasileiros de 55 a 64 anos. Nessa faixa, 53,3% iniciam negócios por necessidade, contra 42,3% por oportunidade. A diferença sugere que, entre os empreendedores mais velhos, a decisão de abrir um negócio pode estar cada vez mais associada à busca por autonomia, novos projetos e aproveitamento da experiência acumulada ao longo da carreira.

Para Ycaro Martins, CEO e fundador da Maxymus Expand, empresa especializada em estratégias de crescimento e estruturação de negócios de alta performance, empreender depois dos 60 pode representar uma vantagem competitiva importante. O repertório profissional, a rede de relacionamentos e a maturidade para tomar decisões tendem a reduzir erros comuns de quem inicia um negócio sem experiência. O desafio, segundo ele, está em transformar todo esse conhecimento acumulado em uma empresa estruturada e preparada para o mercado atual.

Aos 60 anos, uma pessoa pode carregar quatro décadas de experiência profissional, relacionamentos e aprendizados. Isso tem um valor enorme no empreendedorismo. Em muitos mercados, principalmente aqueles em que confiança, credibilidade e relacionamento influenciam a decisão de compra, essa maturidade pode se tornar uma vantagem competitiva. O ponto é entender que experiência abre portas, mas estrutura, gestão e capacidade de adaptação são o que sustentam um negócio”, afirma Ycaro.

Imagem de drobotdean no Magnific

Para o especialista, um dos principais erros de quem começa a empreender nessa fase da vida é tentar construir uma empresa excessivamente dependente do próprio fundador.

Experiência profissional não pode ser confundida com modelo de negócio. O empreendedor precisa transformar aquilo que aprendeu ao longo da vida em processos, indicadores, tecnologia e pessoas capazes de executar. Se tudo depende dele para funcionar, ele não construiu uma empresa escalável, construiu um novo emprego para si mesmo. E esse é um erro que vale para qualquer idade”, explica.

Aos 68 anos, Tania de Jesus, moradora de Santos (SP), encontrou no empreendedorismo uma nova forma de continuar ativa e transformar décadas de experiência profissional em um negócio próprio. A busca por uma atividade que trouxesse mais autonomia acabou levando Tania ao setor de turismo. Ela conheceu a 3,2,1 GO!, rede de franquias especializada em experiências de viagens para destinos nacionais e internacionais, depois de ver uma propaganda da marca em um programa de rádio. O interesse pelo segmento também tinha relação com um gosto pessoal, já que sempre gostou de viajar e discutia com o marido, de 66 anos, a possibilidade de abrir um negócio. Desde novembro de 2025, os dois comandam uma unidade da franquia em Santos – SP. O marido contribui com a experiência comercial adquirida em atividades ligadas a consórcios, imóveis e financiamentos, enquanto ela concentra parte da operação no público acima dos 60 anos.

A estratégia inclui a criação de grupos de viagens e roteiros voltados à terceira idade, com destinos como Gramado e um cruzeiro com destino a Búzios previsto para 2026. A ideia é transformar a identificação com esse público em uma oportunidade de negócio e, ao mesmo tempo, atender a uma demanda de consumidores que buscam experiências de viagem adequadas à sua faixa etária.

Imagem de magnific

Para Tania, a maturidade também pode ser um diferencial competitivo. Experiência profissional, paciência, relacionamento com clientes e maior disponibilidade de tempo são características que, segundo ela, ajudam na condução da empresa e na construção de confiança com o público.

O caso também levanta uma questão mais ampla para o mercado, sobre o que muda quando profissionais com décadas de experiência decidem empreender depois dos 60? Além da possibilidade de aproveitar conhecimentos acumulados ao longo da carreira, essa geração precisa lidar com desafios como adaptação tecnológica, gestão financeira, aquisição de clientes e construção de modelos de negócio sustentáveis.

Na avaliação de Ycaro, a tecnologia não deve ser encarada como uma barreira geracional. Inteligência artificial, automação, ferramentas de gestão e novos canais de vendas podem, inclusive, permitir que profissionais mais experientes transformem conhecimentos acumulados durante décadas em negócios mais eficientes.

O empreendedor de 60 anos não precisa competir tentando ser o jovem de 25. Ele precisa usar aquilo que tem de mais valioso, que é o repertório, relacionamento, capacidade de leitura de pessoas e experiência em tomada de decisão. E combinar tudo isso com profissionais mais jovens, tecnologia e novas ferramentas. Essa integração entre experiência e inovação pode produzir negócios extremamente competitivos”, finaliza o especialista.

Ycaro Martins, CEO e fundador da Maxymus Expand

@ycaro_a_martins | maxymusexpand

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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