Por Paulo Maia
I. A poeira que não baixou
(Em memória às vítimas de 11 de setembro de 2001 e às sombras que dividiram o mundo)
Nove horas e quatro minutos de uma manhã de setembro.
O céu de vidro de Nova York rasgou-se em fogo,
e o tempo, retilíneo até então,
dobrou-se sobre o próprio peso.
Três mil almas tomadas em instantes,
feitas cinza, silêncio e espanto.
A maior potência do mundo descobria, no susto,
a fragilidade do seu próprio chão.
Mas a tragédia daquele dia não coube no luto.
A poeira que cobriu Manhattan
não baixou nos anos seguintes;
soprada pelos ventos da vingança,
atravessou os oceanos, rasgou continentes
e assentou-se sobre a alma do século XXI.
Na busca obstinada por punir o invisível,
o mundo vestiu a armadura da suspeita.
A Guerra ao Terror multiplicou os seus próprios monstros:
fronteiras ergueram-se, olhares tornaram-se armas,
e o outro — aquele de fé, pele ou sotaque distinto —
virou ameaça permanente.
Vinte e cinco anos se passaram.
A vingança prometida não trouxe a paz;
trouxe a vigilância, o estigma e a paranoia.
A ilusão de um mundo seguro ruiu com as torres.
E o terror, tragicamente, viu a sua semente germinar
no exato lugar em que a civilização escolheu odiar.

Imagem por National Park Service, Public domain, via Wikimedia Commons
II. O século da suspeita
Caro leitor e querida leitora, as datas redondas da história têm o hábito incômodo de nos exigir contas. Exatos vinte e cinco anos nos separam daquela terça-feira que redefiniu o mapa geopolítico e a psicologia do planeta.
Se olharmos para o quarto de século que transcorreu desde 2001, a constatação é amarga: a tragédia do 11 de setembro não se encerrou na remoção dos escombros do Ground Zero. O ato bárbaro projetado por Osama bin Laden carregava uma armadilha psicológica cruel — a de induzir a maior potência democrática do mundo a reagir com a desmesura da força, desrespeitando o próprio direito internacional e caindo em um ciclo interminável de retaliações.
A chamada “Guerra ao Terror” que se seguiu não erradicou o extremismo. Pelo contrário: desmantelou Estados, gerou novas e mais violentas organizações criminosas e espalhou o veneno da islamofobia e do preconceito por todo o Ocidente. O medo, que deveria ser uma reação temporária ao trauma, transformou-se em um método de governança e em um modelo de negócios para as redes de informação.
Houve momentos no século passado em que vislumbrávamos o futuro como o palco da celebração de nossa potência humana, mas a nossa natureza logo se apressou para mostrar que o século XXI, e os que virão depois, trarão a crueldade embalada com uma fina casca de falsa esperança.
Hoje, vivemos em uma sociedade onde a vigilância em massa é aceita com naturalidade, onde as fronteiras geográficas e humanas se fecharam e onde a convivência entre diferentes tornou-se cada vez mais tensa. Aprendemos a trocar parcelas valiosas de liberdade por uma promessa duvidosa de segurança.
Recordar os vinte e cinco anos do 11 de setembro, portanto, é mais do que prestar uma justa e respeitosa homenagem às milhares de vidas ceifadas naquele dia. É ter a coragem de olhar no espelho da história e perguntar: até que ponto permitimos que o terrorismo pautasse a nossa humanidade?
A verdadeira vitória sobre a barbárie jamais virá pela reprodução da violência ou pelo preconceito cego. Virá, se é que ainda há tempo, pela recusa em transformar o medo na única linguagem da existência humana.






























