Por Paulo Maia
Há tempos, intelectuais, cientistas políticos e sociólogos apontam a chamada polarização como uma praga contemporânea que se espalha pelo globo, dividindo sociedades e erguendo muros onde deveriam existir pontes. Nossos algoritmos e bolhas digitais surgem justamente quando nos entrincheiramos na convicção cega das nossas certezas — garantindo a nós mesmos o rótulo do “correto” e carimbando no outro, sem hesitação, a marca do “errado”.
Buscamos razões externas para essa chaga, mas suspeito de que a explicação habite em um lugar bem mais próximo e desconfortável: na nossa própria essência humana.
A verdade incômoda é que odiar é incomparavelmente mais simples do que amar. Amar exige esforço, desprendimento e um sentimento genuíno de alteridade. O ódio e a raiva, por outro lado, são atalhos químicos e emocionais moldados pela nossa evolução. São ferramentas primitivas de defesa e sobrevivência. Quando testemunhamos uma injustiça, a nossa mente exige reparação imediata para restaurar o sentido das coisas; percebemos que a balança da existência está desequilibrada e, munidos da indignação, transformamos a raiva em combustível para a luta.
Essa necessidade atávica de nivelar a balança é tão profunda que atravessa a história. Desde a nossa pré-história — das primeiras tribos às civilizações que as sucederam —, a humanidade sacrificava a vida de animais e até de seres humanos para aplacar a ira dos deuses. No fundo, projetávamos no divino a nossa própria natureza: a crença de que os deuses, assim como nós, exigiam sangue para reestabelecer a ordem.

O estranhamento, a cultura e o medo do outro
A busca por sobrevivência e a satisfação dos nossos desejos se expressam inevitavelmente na busca por poder e controle. Ao dominar um grupo ou um território, o animal humano edifica uma sensação provisória de conforto e segurança. E, nessa arquitetura de proteção, o preconceito surge não por acaso, mas como fruto direto do medo do desconhecido. Tudo o que não entendemos nos ameaça.
Lidar com o preconceito exige um desprendimento profundo — uma renúncia momentânea dos nossos próprios anseios para tentar olhar o mundo através dos olhos do outro. Mas isso é extremamente difícil e, para muitos, simplesmente impossível. A formação cultural e psicológica construída em nós através do convívio entre os nossos pares cria um mundo idealizado que dificilmente aceita o diferente.
É aí que o jargão contemporâneo do “autoconhecimento” falha miseravelmente. A cultura de massa e o marketing dos coaches nos vendem a ideia de que olhar para dentro é uma jornada bonita, iluminada e gratificante. Não é. Como bem advertia Søren Kierkegaard, “toda forma verdadeira de conhecimento começa com um entristecimento consigo mesmo”. Olhar para a própria essência é encarar a nossa pequenez, as nossas covardias e a nossa capacidade para a monstruosidade. Conhecer-se de verdade pode ser uma viagem devastadora.
E há uma complicação ainda mais profunda: mesmo quando o processo de autoconhecimento nos permite identificar com clareza nossas fraquezas e defeitos, não fazemos a menor ideia de como tratá-los. Não existe um manual de instruções para a nossa anatomia moral. Qualquer intervenção ou ação que empreendamos para “consertar” o que julgamos quebrado em nós é um tiro no escuro — pode não funcionar ou, pior, resultar em um desastre ainda maior do que o estado original. A negação e a imperícia sobre nós mesmos são, muitas vezes, o cimento que edifica e consolida o nosso preconceito.

A paz como intervalo entre guerras
Dizem que Winston Churchill teria afirmado que “a história do mundo é a história das guerras”. Embora a autoria exata da frase seja incerta, a sua precisão histórica é devastadora. Ao observarmos a jornada da civilização desde os primórdios até o presente, percebemos que a paz raramente é um estado permanente; é apenas o intervalo no qual a humanidade se prepara para o próximo conflito. A história de da civilização romana nos mostra exatamente isso. Se contarmos desde o início da grande expansão territorial no Mediterrâneo, iniciado em 509 a.C., até o fim do império em 476 d.C., são assustadoramente 10 séculos! Mas a prática da guerra para a conquista ou para a paz, segue firmemente até nossos dias, sob qualquer pretexto, seja para dominação territorial e de recursos ou simplesmente por genocídio, lamentavelmente, apenas com objetivo de exterminar uma raça, grupo étnico, nacional, religioso ou ideológico.
O saudoso jornalista Paulo Francis, ao comentar os históricos conflitos territoriais e étnicos, resumiu uma grande verdade antropológica: o homem só se encontra verdadeiramente em paz entre os seus.
Se a biologia nos irmana como espécie, é a cultura que nos diferencia. A cultura não é apenas o conjunto das nossas produções artísticas ou sociais; é a representação viva da nossa visão de mundo. Quando nos deparamos com hábitos, crenças e valores radicalmente opostos aos nossos, a primeira reação é o estranhamento. Em seguida, vem o distanciamento. E, ao menor sinal de que o nosso modo de vida pode ser ameaçado, acionamos os mecanismos de defesa e damos o primeiro passo em direção à guerra. Na maioria das vezes, porque é necessária mesmo: a ameaça é real e concreta.
No entanto, há uma ironia magnífica nessa dinâmica: a mesma cultura que nos afasta é aquela que nos aproxima e nos transforma. A humanidade contemporânea não seria nada sem a colcha de retalhos culturais acumulada ao longo dos milênios. A própria história nos mostra que, quando duas culturas entram em choque — por mais violento que seja esse encontro —, ocorre uma inevitável e silenciosa assimilação. Com o passar do tempo, adotamos hábitos, palavras e visões daqueles que, a princípio, consideramos inimigos.

A ausência de soluções mágicas
Não há uma fórmula mágica para consertar a “bagunça” do mundo. Boas intenções não são garantias de salvação; com frequência, servem de combustível para as maiores atrocidades. Como lembra o velho ditado, o inferno está cheio de boas intenções.
A história nos ensina que não sermos orgulhosos e pretensiosos a ponto de acreditar que podemos “salvar” a humanidade sozinhos é o primeiro passo para a sobriedade. Não conseguimos. Não temos garantias morais, mas o que nos resta — na La Dolce Vita e na vida prática — é buscar o meio-termo, a contenção dos excessos e a prudência que evita o caos.
Precisamos, desesperadamente, do olhar do outro. Não para que ele concorde conosco, mas para que ele nos lance uma luz nos pontos cegos das nossas próprias certezas — mostrando-nos aquilo que a nossa própria natureza, tantas vezes, insiste em nos esconder para entendermos que, em muitas vezes a paz é uma ilusão, mas a guerra é concreta e eminente.




























