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Moçambicana, é apresentadora do programa Primeira Página na Televisão de Moçambique (TVM) e traz aqui suas reflexões sobre a vida contemporânea.

Aranha Negra

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

A luta pelo respeito, pela verdade e pela dignidade começa por sabermos a quem devemos pedir explicações

Há uma coisa curiosa que acontece quando uma mulher descobre que está a ser traída pelo marido: a primeira reação, muitas vezes, não é questionar o homem com quem partilha a vida, mas procurar a mulher com quem ele se envolve. De repente, a amante transforma-se numa bandida que lhe quer roubar o marido, numa golpista que lhe quer destruir o casamento ou numa espécie de criatura perigosa que lançou uma teia para capturar o seu homem. E é daqui que nasce a nossa Arranha Negra.

Por que Aranha Negra? Porque, na nossa imaginação, esta mulher é quase uma aranha que tece a sua teia, enrola a presa e, no fim, a consome. Acreditamos que ela seduziu, enfeitiçou, manipulou e roubou o marido de alguém. Mas, no meio de tantas acusações, há uma pergunta que parece ficar esquecida: onde estava o marido enquanto tudo isso acontecia?

Vamos por partes.

É possível que uma mulher saiba que um homem é casado e, ainda assim, decida envolver-se com ele. É possível que tenha consciência da existência da esposa, dos filhos e do compromisso que aquele homem assumiu. E, sim, ela também pode ser responsabilizada pelas suas escolhas. Não precisamos de fingir que todas as amantes são inocentes ou que nenhuma age deliberadamente para provocar a esposa. Há situações em que a amante procura a esposa, provoca-a ou faz questão de exibir a relação. Mas esses são casos específicos, que não podem servir de justificação para transformar todas as mulheres que ocupam esse lugar em vilãs.

Porque há uma outra pessoa nesta história. Uma pessoa que, por vezes, parece receber o benefício da dúvida mesmo quando foi ela quem quebrou a promessa feita dentro de casa.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

O teu marido sabia que era casado. Sabia que tinha um compromisso contigo. Sabia, ou deveria saber, as consequências de se envolver com outra pessoa. Ainda assim, escolheu fazê-lo. E, independentemente de pretender assumir a amante como segunda esposa, de querer construir outra família ou de considerar aquela relação apenas uma aventura, continua a ser ele quem tinha um compromisso contigo.

Então, por que razão a primeira culpada tem de ser sempre a outra mulher?

É mais fácil acreditar que alguém nos roubou aquilo que é nosso do que aceitar que a pessoa a quem confiámos o nosso coração tomou decisões que nos magoaram. Talvez seja menos doloroso imaginar uma mulher maquiavélica, capaz de controlar o nosso marido, do que reconhecer que ele tem vontade própria e fez escolhas sem precisar de qualquer feitiço.

Mas precisamos de compreender uma coisa: ninguém rouba um marido como se ele fosse um objeto sem vontade própria. Um homem não é um telemóvel que alguém leva da mesa enquanto estamos distraídas. É uma pessoa adulta, capaz de pensar, decidir e assumir as consequências dos seus atos.

Por isso, se insistirmos em olhar para a amante como uma aranha que tece uma teia para capturar o nosso homem, precisamos de ter coragem para olhar também para o homem que decidiu entrar nessa teia. Afinal, quem se aproximou dela? Quem aceitou os encontros? Quem alimentou as conversas? Quem decidiu atravessar os limites do compromisso que tinha assumido?

A aranha pode tecer a sua teia, mas não consegue obrigar um homem consciente a entrar nela.

E há ainda outra questão que merece ser discutida: a gravidez.

Quando a amante engravida, lá vêm as acusações. “Ela deixou-se engravidar de propósito!”. “Ela queria prender o meu marido!» «Ela fez isso para destruir a minha família!”.

Mas como é que chegámos a esta conclusão sem sequer olhar para as circunstâncias? O teu marido estava inconsciente? Estava impossibilitado de tomar decisões? Ou era um homem adulto que sabia o que estava a fazer e escolheu envolver-se sexualmente sem a devida proteção?

Se duas pessoas participaram conscientemente numa relação sexual, não podemos atribuir automaticamente toda a responsabilidade pela gravidez à mulher. A prevenção é uma responsabilidade partilhada, e um homem não pode agir como se não tivesse qualquer controlo sobre as próprias escolhas para, depois, quando surge uma consequência, transformar a mulher na única culpada.

É claro que existem situações complexas, manipulações e circunstâncias particulares que precisam de ser analisadas individualmente. Mas não podemos partir do princípio de que toda a gravidez fora do casamento foi uma armadilha preparada pela amante.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

E, afinal, o que sabemos sobre a mulher que decidimos chamar de Aranha Negra?

Talvez seja uma mulher que sabe perfeitamente onde se está a meter. Talvez seja alguém que não se importa com o compromisso de outra pessoa. Mas também pode ser uma mulher carente, enganada, iludida por promessas ou convencida de que aquela relação lhe trará alguma coisa que lhe falta. Não sabemos sempre a história inteira. E, mesmo quando conhecemos parte dela, isso não nos dá o direito de inventar o resto apenas para justificar a nossa raiva.

Isto não significa que a esposa tenha de aceitar a situação, gostar da amante ou fingir que nada aconteceu. Muito menos significa que deva tolerar provocações ou desrespeito. Significa apenas que precisamos de colocar a responsabilidade no lugar certo.

Descobriste que o teu marido te trai? Confronta-o. Exige explicações. Decide o que estás disposta a aceitar e o que já não cabe na relação que construíste. Procura resolver a questão com a pessoa que assumiu o compromisso contigo. E, se decidires terminar a relação, que seja porque reconheces que ela deixou de corresponder aos teus valores e às tuas necessidades, não porque acreditas que uma terceira pessoa tem poderes mágicos para te roubar aquilo que é teu.

Porque, no fim, a mulher a quem chamas Arranha Negra pode não ser a criatura monstruosa que imaginaste. Pode ser apenas mais uma pessoa à procura de afeto, companhia ou de alguém que lhe alegre os dias. Pode ter cometido erros, pode ter feito escolhas questionáveis, mas não é por isso que devemos retirar ao teu marido a responsabilidade pelas decisões dele.

E talvez seja precisamente aqui que precisamos de mudar a conversa entre mulheres.

Design Dolce Morumbi sob imagem em Canva

Em vez de transformarmos todas as amantes em inimigas e todas as esposas em vítimas de uma conspiração feminina, precisamos de aprender a olhar para as nossas relações com mais lucidez. A mulher não é automaticamente tua inimiga só por se envolver com um homem casado. E o homem não deixa de ser responsável só porque encontrou alguém que aceitou envolver-se com ele.

A verdadeira questão não é saber quem te roubou o marido. É perceber por que razão o homem com quem assumiste um compromisso decidiu quebrá-lo e o que pretendes fazer a partir daí.

Por isso, da próxima vez que pensares em chamar Arranha Negra à amante do teu marido, lembra-te de que uma teia não se constrói sozinha — e de que nenhuma aranha consegue devorar uma presa que nunca decidiu aproximar-se dela.

Talvez, no fim desta história, a Arranha Negra não seja assim tão negra. Talvez seja apenas uma mulher, com as suas carências, as suas escolhas e as suas contradições.

E o teu marido? Continua a ser um homem adulto, responsável pelas decisões que toma.

Vamos parar de demonizar as outras mulheres para poupar os homens que escolheram trair-nos. A luta pelo respeito, pela verdade e pela dignidade começa por sabermos a quem devemos pedir explicações.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Erica Paiva vive em Maputo, Moçambique e é bacharel em direito e tem uma atuação ativa na área de comunicação, cultura e no social. Considera a escrita uma forma de se comunicar com o mundo, levando suas reflexões acerca dos contrastes da sociedade em seu cotidiano. Seus textos buscam compreender a alma humana e, ao mesmo tempo, devolver-lhe um pouco de beleza, reflexão e esperança
Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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