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Brasileiras falam da força invisível de quem vive a maternidade atípica

Design Dolce sob imagem por diversifylens em Canva

Entre desafios e aprendizados, mães de pessoas com deficiência encontram no Projeto Laços, do Instituto Serendipidade, um espaço de escuta, acolhimento e pertencimento para seguir cuidando e transformando realidades

Tem um ditado popular que diz que ‘ser mãe é padecer no paraíso’. O romantismo equivocado dessa máxima traz à tona a realidade enfrentada pela maior parte das mulheres que têm filhos: uma rotina que exige entrega física, emocional e financeira. E quando se tem uma criança com deficiência, todo esse contexto é potencializado por uma jornada cheia de superação e, muitas vezes, invisibilidade social. Elas tornam-se cuidadoras em tempo integral, advogadas dos direitos dos filhos, educadoras, terapeutas e a principal fonte de estímulo e segurança para o desenvolvimento daquela pessoa.

Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) indica que em 58% das famílias que possuem uma pessoa com deficiência, é a mãe quem assume o protagonismo dos cuidados. É o que ocorre com a Lilian Bertoso e com a Flávia Piza. Lilian é mãe de dois meninos, de 8 e 10 anos. Flávia, de duas meninas, de 23 e de 16 anos. Ambas exercem as duas faces da maternidade, uma típica e outra atípica. “Eu digo que eu sou mãe de duas filhas únicas, pois acabo me dividindo. A maternidade da Isabela é completamente diferente da maternidade da Sofia. A cabeça muda, o jeito de se comportar muda, porque eu acho que o mundo realmente não está preparado para pessoas diferentes e enfrentar essa realidade traz, sim, um sentimento de culpa, principalmente por eu não conseguir proporcionar as mesmas coisas para as minhas duas filhas”, relata Flávia.

Design Dolce sob imagem por diversifylens em Canva

Para Lilian, o sentimento de culpa não é algo que faça parte da sua rotina, mas o receio dos desafios que o filho com síndrome de Down terá pela frente, sim. “Minha preocupação é com as questões externas, com a inclusão efetiva: como vai ser o futuro dele quando adulto, as oportunidades de trabalho e de poder levar a vida o mais próximo do normal – o que é possível, mas depende de um contexto que foge do meu alcance. Sempre fiz de tudo para que o Gabriel tivesse uma vida comum como a de qualquer criança. Claro, houve momentos mais difíceis, mas hoje ele tem autonomia adequada para a idade dele. Então, na minha realidade, hoje a sobrecarga é mais emocional, de pensar no futuro”, afirma.

Tanto Flávia quanto Lilian são acolhedoras no Projeto Laços, do Instituto Serendipidade, uma organização sem fins lucrativos que presta suporte a famílias e pessoas com deficiência em várias fases da vida. “O Projeto Laços nasceu da necessidade de acolher, escutar e apoiar mães que descobriram o diagnóstico e que vivem uma jornada de amor e desafios que poucos compreendem. Para nós, essas mães precisam mais do que orientação técnica: elas precisam de rede de apoio, afeto e pertencimento. O Laços promove rodas de conversa, encontros e formações que fortalecem vínculos e oferecem um espaço seguro de troca entre mães que compartilham realidades similares”, explica Marina Zylberstajn, coordenadora do Projeto Laços.


Flávia Piza com a filha Isabela | Divulgação

Apesar de tantos desafios e, principalmente, barreiras sociais, é importante destacar que essas mães desenvolvem uma resiliência admirável – e no Projeto Laços, encontram base e apoio para construir uma forma mais leve de maternar. Muitas se tornam ativistas por inclusão e acessibilidade, e se especializam em temas como educação inclusiva, saúde e direitos das pessoas com deficiência. Na sua luta, elas contribuem para a transformação da sociedade como um todo.

O conhecimento é libertador, e eu acredito que o tripé amor – credibilidade – estímulo podem ajudar tanto a criança quanto os responsáveis por ela a trilharem um caminho seguro de desenvolvimento e resultados positivos. Assim eu enxergo o quanto estou fazendo a diferença não só para a vida do meu filho, mas na minha vida e para a sociedade. Quando buscamos educar as pessoas ao redor sobre a deficiência, seja ela qual for, estamos também ajudando a transformar o mundo, passando a enxergar a deficiência de forma leve”, aconselha Lilian.


Lilian Bertozo com o filho Gabriel

Flávia, que também é psicanalista, reforça o quanto cercar-se de amparo interno e externo é determinante para enfrentar a jornada da maternidade atípica. “Eu acho que a maternidade atípica faz todas as mulheres se tornarem muito fortes. E não necessariamente era um desejo. Eu, por muitas vezes, me perguntei por que eu tenho que ser tão forte. Eu não queria ser forte. Mas eu não tinha escolha. A maternidade atípica não é fofa, ela é desafiadora, um aprendizado constante. É preciso buscar informações e autoconhecimento. A terapia, por exemplo, abre espaço para essa dor silenciada pelas outras pessoas. Ser mãe atípica é ter uma vida diferente e precisamos enxergar e vivenciar as belezas dessa vida”, opina.

O Instituto Serendipidade é uma organização sem fins lucrativos que potencializa a inclusão de pessoas com deficiência, com propósito de transformar a sociedade através da inclusão. Visa ser impulsor de impacto social relevante, colaborativo e inovador, sempre prezando pela representatividade, protagonismo, de forma transversal e acima de tudo, com muito respeito. As iniciativas que atendem diretamente o público são: Programa de Iniciação Esportiva para crianças com síndrome de Down e deficiência intelectual, de famílias de baixa renda; Programa de Envelhecimento que atende mais de 60 idosos com algum tipo de deficiência intelectual para promoção do bem-estar; e o Projeto Laços, que acolhe famílias que recebem a notícia de que seu filho (a) tem algum tipo de deficiência. Atualmente, o Serendipidade impacta mais de um milhão de pessoas, criando pontes, gerando valor em prol da inclusão e através do atendimento direto a pessoas com deficiência intelectual e suas famílias.

@institutoserendipidade

Colaboração da pauta:

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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