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Saudades

Design Dolce sob imagem por csh3d em Canva

É que hoje acordei com a cabeça fervilhando de ideias

Por André Naves

Agora… Até coloquei Laufey para tocar. A voz dela é calma, melancólica, meio bossa nova, sabe? Dá um clima legal! Na verdade, ainda não sei bem como começar, pai. Escrever pra você é como jogar conversa para o Universo, mesmo que no meio da sala. Lembro do sofá, agora vazio, sinto as palavras fugirem feito passarinho… É quase como se você ainda fosse responder com aquelas tiradas cheias de sabedoria e provocação. Sabe aquelas ranhetices nossas? É que hoje acordei com a cabeça fervilhando de ideias. Sabe como é, né? Um “toró de cachola”, como dizem.

Deve ser esse Mundial de Clubes. Sabia que eu não estou perdendo jogo nenhum? Tenho certeza de que você sabia! Aposto que está vendo tudo daí, com aquele seu jeito concentrado, largado. Assisti a Juve contra Manchester. Que jogão, hein? Se você estivesse aqui, acho que nem perdia Mamelodi contra Urawa Reds. Mas, cá entre nós, o Mundial começou cheio de uns times “mais ou menos”. Dá até saudade de quando a Portuguesa dava sufoco nos grandes! E as estrelas, pai? Tem time bom, claro!. A partir de agora, melhora!

Design Dolce sob imagem por Trifonov Evgenly em Canva

Sabe, hoje, cada lance que assisto, lembro de você. Não só de você torcendo, mas daquelas nossas provocações durante o jogo. Lembra, uma vez, era italiano contra inglês? Não sei se era Champions ou outro campeonato, mas, faltando 15 minutos, o inglês ganhava de 3 a 0. Eu, todo convencido, soltei aquele clássico de belezura: “Pai, dá pra desligar a TV e tomar café! Não dá pra virar isso em 15 minutos!”. E você devolveu: “Pra quem sabe jogar, 15 minutos é uma eternidade!”. Não deu outra! 3 gols. Pênaltis. Vitória italiana. No fim era aquele sorriso de profecia, meio “eu te disse”, meio “eu sabia que você ia gostar disso”.

Ah, pai… já que estamos aqui nessa prosa, deixa eu te confessar uma coisa. Desde pequeno, você sabe, minha “cara oficial” sempre foi a de são-paulino. Todo mundo dizia: “André puxou ao Xixa, esse é tricolor!”. Mas meu coração, no fundo — e você sabia disso — sempre bateu pelo Palmeiras. Nem sei ao certo como aconteceu, mas era meu jeito de te homenagear. Eu achava que ser são-paulino era minha forma de mostrar carinho por você, sabe? Aquelas camisetas que você comprava, os agasalhos… eu usava tudo com o maior orgulho! E ainda hoje, pai, poucas coisas têm tanto valor pra mim quanto suas camisas.

Depois que o câncer fez de você uma estrela, aquelas peças se tornaram minhas relíquias. Só que eu não sou do tipo que guarda as coisas como tesouro intocável. Não! Comigo é diferente. Eu acho que no uso é que está o verdadeiro valor da homenagem! Vou na academia com elas, faço feira, caminho por aí. E todo mundo acha que eu sou são-paulino. O feirante grita: “Bom dia, são-paulino!” Eu sorrio e não explico nada. Você entende, né?

Design Dolce sob imagem por sihasakprachum em Canva

E, olha só, agora o Kokoroko começou a tocar na minha playlist. Música boa, cheia de alma. Do seu tipo! Acho que você ia gostar. Parece coisa de sábado à tarde, dia de jogo na TV e a casa cheia daquelas conversas ácidas que só a gente sabia ter.

Eu fico pensando, pai. Você aí, eu aqui, dividindo o mesmo tempo, mas em planos diferentes. Se ao menos existisse uma pausa no espaço, como aqueles 15 minutos que duram uma eternidade, pra gente sentar e assistir… Quem sabe, né? Esse “quem sabe” é que mantém a gente andando. Como você dizia: “Aprende ou aprende!”. É isso. É hora de “arregaçar a manga e jogar o basquete!”. A gente segue, com fé e um sorriso no rosto. Com saudades, mas sempre acreditando!

Agora a Laufey tá de volta com outra música. Pensei que ia te escrever pra botar pra fora as saudades, mas não… te escrevi hoje pra conversar na memória, e me firmar no caminho.

Obrigado por esses 15 minutos, pai!

Que a estrela que você virou nunca deixe de brilhar aqui dentro.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

André Naves é Defensor Público Federal formado em Direito pela USP, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social; mestre em Economia Política pela PUC/SP. Cientista político pela Hillsdale College e doutor em Economia pela Princeton University. Escritor e professor

Colaboração da pauta:

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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