Por Tânia Lins
Sentada à janela do ônibus que a levaria para longe — onde pudesse escrever um novo capítulo de sua vida —, a mulher, após concluir a leitura, não conseguia abafar tantas reflexões: “Por que não consigo simplesmente aceitar a primeira resposta, sem ir além, sem escavar sentidos? Ah, essa mania de cavucar a terra à procura do que a superfície insiste em esconder”.
A palavra fim na página derradeira, longe de representar um encerramento, parecia mais uma provocação à sua mente inquieta. Ali, com o livro nas mãos, perdia-se revisitando cada personagem, cada história, sem necessariamente se deter no protagonista. Apreciava também os coadjuvantes, especialmente os mais sensíveis, que, mesmo atravessando a narrativa quase em silêncio, deixam lições profundas.

Foi assim que seus pensamentos se voltaram para Germana — um nome comum, como Maria, Madalena, Joana, mas carregado de força feminina. Longe de ser a protagonista da narrativa, ainda assim era a personagem central nos intrincados caminhos que ensinam sobre humanidade, acolhimento e percepção.
Retratada com sensibilidade no romance Loucuras da alma, de Ana Cristina Vargas, ditado por José Antônio, Germana cuida, ama e acolhe em um cenário de trevas — a Alemanha do século XVI —, dominado pela Igreja Católica, que incutia e fomentava ideias repressoras, ancoradas em um Deus punitivo. Curandeira, parteira, questionadora, desde cedo Germana aprendeu a trabalhar em sintonia com o fluxo natural da vida. Observadora, entendia que tudo obedecia a ciclos harmônicos e interligados — há o tempo do plantio e o da colheita.
Para Germana, mulher afeita à ação, conformismo era uma palavra deprimente. Não, ela nunca a usaria em seu vocabulário. Ainda que abraçasse, em muitos dias, o fel dos acontecimentos inesperados, sua coragem a mantinha de pé diante das adversidades. Ela não se curvava a uniões impostas — pois entendia que o amor verdadeiro não precisava institucionalizar-se para existir —, tampouco a instituições ou formas de controle. Livre de imposições e dogmas, semeava afeto por onde passava, acalentando por frei Ingo — um religioso que escolhera a Igreja movido pelo olhar voltado ao outro, não pelo poder que a instituição detinha — um sentimento puro, fruto do encontro entre almas afins.

Entre Germana e Ingo existia um amor depurado, fraternal. Viviam como amigos inseparáveis, conectados por uma afinidade silenciosa, construída no cuidado e na presença — algo muito próximo do que os gregos nomeavam Philia, um sentimento que nasce da convivência, da admiração mútua e da reciprocidade. Nesse cuidado mútuo, essa mulher extraordinária percebe, antes mesmo do amigo, que ele está perdendo a visão. Mas Germana não luta contra o inevitável — longe disso —; transforma a perda em caminho, a dor em ação.
Durante meses, Germana dedica-se a treinar um cãozinho, que ela batiza de Blick (olhos, em alemão), para conduzir Ingo em uma nova realidade, na qual, na ausência da visão, outros sentidos possam ser aprimorados. Cães são sensíveis e reconhecem as diferentes nuances das pessoas. Blick não era diferente e logo percebeu que entre Germana e Ingo havia cuidado e zelo, tornando-se, à sua maneira, a materialização desse vínculo.

Ingo apaixona-se pelo amigo de quatro patas, que lhe devolve a liberdade de caminhar com mais autonomia, mesmo nos dias mais nublados, como tantas vezes também se encontrava sua alma. Germana, por sua vez, não apenas treina o cão, como também o próprio Ingo, ensinando-o a confiar nos instintos — nos seus e nos de Blick.
A princípio, o amigo resiste à ideia — talvez por orgulho em aceitar a própria limitação —, mas, aos poucos, a resistência dá lugar à gratidão. Como recusar um gesto tão significativo? Germana foi lucidez e abrigo quando o frio da desgraça alcançou Ingo.
Com o livro entre as mãos, a leitora ainda refletia sobre o aprendizado daquela narrativa singela e carregada da pureza dos que enxergam além da escuridão das fraquezas humanas. Ali, ela compreendeu que a confiança também é um aprendizado: em si, no outro, na vida, algo que não se revela por meio dos olhos físicos, mas, sim, uma construção que envolve todos os sentidos e, sobretudo, a forma como nos conectamos com o outro e conosco — uma espécie de bússola do coração. E talvez, pensou, não sejamos os personagens centrais na vida de alguém, contudo, há algo de profundamente transformador nas presenças breves, que, mesmo atravessando a história quase sem ruído, deixam marcas indeléveis.
Fechou o livro e concluiu: reflexões são incômodas, mas necessárias. Talvez fossem elas que a mantivessem viva. Sorriu de leve. No final das contas, velhos hábitos nem sempre devem ser descartados.






























