Por Marco Nascimento
Era uma manhã clara, daquelas em que o sol parece acordar de bom humor. Eu devia ter uns sete anos quando meu pai me entregou uma sacola cheia de laranjas. Pesada para o meu tamanho, mas leve para a expectativa dele.
— Vai lá no campo e vende.
O campo de futebol ficava a poucos minutos de casa. Era o ponto de encontro do bairro, cheio de gente, barulho, risadas e aquele movimento constante de fim de semana. Para os adultos, uma festa. Para uma criança, um território desconhecido.
Fui.
Caminhando devagar, sentindo o peso da sacola e algo ainda mais pesado dentro de mim: a responsabilidade. Não lembro de alguém me ensinar como vender. Não houve roteiro, nem orientação. Apenas a tarefa.
Quando cheguei ao campo, vi pessoas conversando, jogando, assistindo. E, por algum motivo, eu me senti deslocado.
Não consegui oferecer.
Não consegui chamar.
Não consegui insistir.
Não consegui vender.
Mas consegui fazer algo.
Comecei a distribuir. Queria logo resolver o problema.
Uma laranja aqui, outra ali. Sorrisos surgiam, agradecimentos vinham, e aquilo parecia, de alguma forma, mais confortável. Mais natural. Mais leve.
Rapidamente, a sacola estava vazia. E meus bolsos também.

Voltei para casa com o coração apertado, mas ainda sem entender exatamente o porquê. A decepção me esperava antes mesmo de eu atravessar a porta. Não foi preciso dizer muito. O resultado falava por si.
Naquele dia, sem que ninguém declarasse formalmente, algo foi decidido: eu não tinha o “dom” para vendas.
E, curiosamente, eu acreditei. Para falar a verdade, nem achei isto ruim.
O tempo passou. Cresci. Estudei. Trabalhei. E nunca mais considerei a possibilidade de vender algo. Aquela memória ficou guardada, silenciosa, como um rótulo invisível que eu carregava sem questionar.
Até que, já adulto, surgiu uma oportunidade inesperada.
Eu estava envolvido no voluntariado de uma instituição. Um ambiente completamente diferente daquele campo de futebol — mas, de certa forma, revivendo o mesmo contexto e as mesmas variáveis: pessoas, produtos e vendas.
Logo fui convidado para fazer parte da equipe de vendas da instituição, oferecendo cursos. Não era exatamente uma obrigação, mas alguém precisava apresentar e vender aqueles produtos às pessoas.
E eu tentei.
Sem pressão. Sem o “peso” da sacola de laranjas. Sem a “obrigação” antiga.
Mas com algo novo.
Eu acreditava no que estava oferecendo.
Aqueles cursos não eram apenas produtos. Eram ferramentas. Eram oportunidades reais de transformação. Eu via valor, via impacto, via resultado antes mesmo de falar sobre eles.
E algo curioso aconteceu.
As palavras começaram a sair com naturalidade. As conversas fluíam. As pessoas ouviam. Se interessavam. Decidiam.
Compravam.
Uma vez. Depois outra. E outra.
Vendi muitos cursos. Por muitos anos. Para muitas pessoas.
Com o tempo, essa experiência evoluiu para algo ainda maior.

Percebendo os resultados e a necessidade de preparar outras pessoas, estruturamos um curso de qualificação em vendas dentro da própria instituição. E, de forma inesperada para quem um dia “não sabia vender”, eu me tornei professor desse curso.
Passei a treinar outros voluntários.
Pessoas que, assim como eu no passado, tinham dúvidas, inseguranças e, muitas vezes, acreditavam que não levavam jeito para vendas.
E os resultados vieram.
Muitos deles passaram a vender com consistência. Ganharam confiança. Encontraram sua própria forma de se comunicar. E, principalmente, também acreditavam na transformação que os produtos promoviam, melhorando a qualidade de vida das pessoas.
Foi ali que a ficha caiu de vez.
A cada nova venda — minha ou deles — uma percepção se tornava mais clara: eu nunca tive um problema com vendas.
Eu tinha um problema com sentido.
Naquele campo de futebol, aos sete anos, eu não via propósito. Não entendia valor. Não sentia conexão. Distribuir era mais fácil porque, no fundo, parecia mais verdadeiro para mim naquele momento.
Anos depois, quando encontrei algo em que realmente acreditava, vender deixou de ser uma tarefa pesada. Passou a ser uma extensão natural daquilo que eu sentia e gostava (e ainda gosto) de fazer.
E mais do que isso: tornou-se algo ensinável.
Hoje, olhando para trás, entendo que vender não é sobre convencer.
É sobre acreditar.
Quando o vendedor entende, de verdade, que aquilo que está oferecendo pode fazer diferença na vida de alguém, a venda deixa de ser um esforço e passa a ser um fluxo.
É provável que a crença de que “eu não sei vender”, seja apenas o estágio em que ainda não se encontrou algo que valha realmente a pena “acreditar” o suficiente para compartilhar.





























