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Escritora e visagista, autora do livro “Filha de Circe”

O colecionador de histórias

Ele me conhecia como conhecia cada história que contava

Concentre-se!

Eu ordenava inutilmente à minha mente, mas ela insistia em fugir — escorregando para um mundo onde o tempo era suspenso entre o movimento dos lábios rosados à minha frente.

Sentada em roda, com aquele homem no centro, eu o observava como quem contempla um presságio. O contorno do seu rosto era feito de sombras e luz; e os olhos, antes castanhos, brilhavam num dourado reluzente, como se refletissem algo mais do que a fogueira — talvez a chama exata do que fazia seu coração pulsar.

Ou seria o reflexo do feitiço que ele lançava sem esforço?

A voz dele, envolvente, era uma ponte para um tempo distante, mas eu já nem ouvia mais as palavras — apenas sentia.

Imaginava suas mãos vagando pela minha pele como se fossem páginas a serem lidas com os dedos. O calor, o hálito, o arrepio.

Design Dolce sob imagem por South Agency em Canva

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Ele narrava aventuras, epopeias, gestas antigas…

Mas eu, ali, mergulhava em outra história. Uma que só existia entre o som da sua voz e os sussurros do que eu não ousava confessar nem a mim mesma.

Havia magia no modo como falava. Uma cadência, como o canto de uma criatura que vive entre o mar e o mito.

Seduzia sem querer — ou pior, sabendo exatamente o que fazia.

E então…

Seus olhos encontraram os meus. Um segundo, talvez menos. Mas foi o bastante.

Não era apenas um olhar — era leitura.

Como se ele folheasse tudo que se escondia em mim.

E, ao desviar os olhos, deixou a certeza: ele sabia.

A roda desapareceu. O mundo murchou ao redor.

A fogueira tremeluzia, mas o calor agora nascia dentro de mim — ou de algo que ele havia acendido.

Ele me conhecia. Como conhecia cada história que contava.

E eu percebia, com um arrepio lento, que não era ele quem se doava às narrativas…

Eram as histórias que se rendiam a ele.

Design Dolce sob imagem por fotostorm em Canva

Não sei se o desejava porque era belo…

Ou se era belo porque o desejava.

Mas soube, naquela noite, que eu não era a única que o escutava.

Minha pele, meu coração, meus sonhos…

Tudo agora fazia parte dele.

Parte do que ele colhia noite após noite, sem que ninguém percebesse.

Enquanto encerrava a narrativa com aquele sorriso enviesado — sutil demais para ser inocente, escuro demais para ser puro — a verdade me golpeou:

Ele nunca contava histórias.

Ele as colecionava.

E eu acabava de virar mais uma.

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Simone Rodrigues é nascida e criada em São Paulo e há mais de 20 anos é moradora da cidade de Guarulhos; é visagista, hairstylist e maquiadora cuja jornada vai além dos salões de beleza. Em 2018, conquistou o 5º lugar no Prêmio de Literatura Guarulhos com seu primeiro livro, abrindo as portas para uma série de cinco obras subsequentes. Enquanto seu talento se destaca na arte dos cabelos, sua verdadeira paixão se revela nas páginas em que escreve, repletas de histórias de amor e fantasia destinadas a inspirar mulheres. Seus livros não são apenas uma expressão artística, mas uma extensão dos seus sonhos e de sua vida, dedicada a encantar e transformar.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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