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Crônicas ilustradas sobre a vida e o cotidiano

Amores em estado líquido

Ilustração de Ana Helena Reis feita de forma digital com Apple Pen

Queremos amores leves, mas tememos o vazio que a leveza pode deixar

Situationship” é um daqueles termos que nasceram na era digital e rapidamente ganharam espaço no vocabulário afetivo moderno. Define relações em que há conexão emocional, intimidade e presença — mas não necessariamente planos, promessas ou rótulos. Algo entre o amor e o quase.

Com o crescimento dos aplicativos de relacionamento e a cultura do match, essas ligações se tornaram cada vez mais comuns. Duas pessoas se encontram, trocam confidências, compartilham o fim de semana — mas evitam dar nome ao que sentem. Há afeto, sim, mas também uma certa hesitação, como se o compromisso pesasse mais do que o prazer da companhia.

O sociólogo Zygmunt Bauman talvez explicasse isso pela modernidade líquida: vivemos tempos em que tudo escorre — carreiras, planos, certezas, vínculos. As relações se tornaram flexíveis, voláteis e, muitas vezes, descartáveis. No campo amoroso, ele chamou essa condição de amor líquido, aquele que promete liberdade, mas às vezes traz a vertigem da instabilidade.

Design Dolce sob imagem por Teddy Tavan em Pexels

Curiosamente, o situationship vem encantando dois extremos de gerações: os muito jovens, que desejam experimentar o amor sem moldes, e os que já viveram relações sólidas e agora buscam algo mais leve, menos estruturado — talvez um respiro entre histórias.

Mas viver um amor líquido exige preparo. Para alguns, ele é sinônimo de autonomia e honestidade emocional. Para outros, é um terreno movediço que desperta insegurança e ansiedade, esse sentimento de estar sempre à beira de algo que nunca se concretiza.

Talvez o grande dilema seja esse: queremos amores leves, mas tememos o vazio que a leveza pode deixar.

Como já cantou Gilberto Gil, é preciso ter corpo e alma sãos para se aventurar nessas águas. E, como lembrou Fernando Pessoa, “Para viver a dois, antes, é necessário ser um.”

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Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo

Ana Helena Reisé escritora, pesquisadora e professora. A escrita de artigos, textos jornalísticos e resenhas esteve sempre presente na vida profissional como presidente da MultiFocus Inteligência de Mercado. A partir de 2019 começou a se dedicar à escrita e publicação de textos em prosa: contos, crônicas, poemas e resenhas, sempre relacionados a fatos e situações do cotidiano. Ao pensar na forma de publicação de seus escritos, foi buscar um outro gosto seu: a pintura e o desenho. Daí surgiram as ilustrações que dão sentido ao próprio nome do seu blog, Pincel de Crônicas. Em 2024 lançou seus primeiros livros solo, “Conto ou não Conto” e “Inquietudes Crônicas”.

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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