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O complexo de vira-latas com grife

Imagem criada com ferramentas de inteligência artificial.

Por que a nossa crônica incapacidade de planejar expõe mais do que o atraso tático de uma Seleção?

Por Paulo Maia

Se Nelson Rodrigues estivesse vivo para assistir ao ciclo do futebol brasileiro rumo à Copa de 2026, ele provavelmente ignoraria o campo e passaria noventa minutos observando a nossa tribuna de honra. O mestre da nossa dramaturgia gostava do futebol porque ali o brasileiro despia a alma; hoje, temo que ele descobrisse que a nossa alma virou uma sofisticada peça de marketing pessoal.

O pior cego, afinal, não é mais aquele que só vê a bola. É o que só vê o próprio reflexo na tela do celular enquanto finge analisar o jogo.

Nas últimas semanas, as mesas-redondas e as caixas de comentários das redes sociais foram inundadas por uma indignação ruidosa sobre o desempenho da Seleção. É um espetáculo curioso. Uma horda de analistas e torcedores posa de juízes absolutos da moralidade tática, apontando o dedo para a falta de brilho dos rapazes como se a excelência fosse algo que se pudesse exigir por decreto ou comprar em uma loja de conveniência. Nelson chamaria essa gente de “os profetas do acontecido”, mas hoje eles guardam uma vaidade mais moderna: o fetiche de ter razão a qualquer custo, desde que isso renda alguns cliques.

Imagem por Sportingn, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

O diagnóstico técnico, contudo, é de uma obviedade constrangedora. A nossa Seleção não está pronta porque começamos o ciclo tarde demais. Ponto. Enquanto vizinhos e europeus — de Paris a Buenos Aires, de Madrid a Londres — tratam o futebol como uma arquitetura do hábito, onde a constância e a disciplina diária esculpem o caráter de uma equipe ao longo de anos, o Brasil insiste em se atrasar para o próprio banquete. Entramos na sala de exames quando os concorrentes já estão discutindo a nota.

Mas o que realmente fascina na nossa crônica incapacidade de planejar não é o relógio atrasado; é a nossa mística do improviso. Temos uma necessidade quase infantil de acreditar que o talento puro, aquele espasmo de genialidade que brota do nada, é capaz de revogar as leis da lógica e do tempo. Adoramos o mito do salvador da pátria porque ele nos desobriga do peso do processo. O milagre nos poupa do esforço tedioso da repetição, do treino invisível, daquela rotina silenciosa que constrói as reputações que duram. Queremos a glória do pódio, mas temos alergia à burocracia do suor.

É aí que o futebol deixa de ser um jogo de onze contra onze e passa a ser o espelho da nossa convivência civilizada. Passamos os dias encenando certezas absolutas e apontando o erro alheio para mascarar o nosso próprio vazio de referências sólidas. É muito fácil cobrar o planejamento da CBF enquanto gerenciamos as nossas próprias vidas na base do “depois a gente vê”.

Joanesburgo -Torcida brasileira comanda a festa na estreia da seleção na Copa do Mundo da África do Sul
Imagem por Marcello Casal Jr/ABr, CC BY 3.0 BR, via Wikimedia Commons

Dizer que o Brasil corre por fora nesta Copa de 2026 diante de potências estruturadas é apenas um fato estatístico. Mas esperar que o gênio isolado resolva o que a falta de hábito destruiu é de um narcisismo cego. No grande teatro da existência, a verdadeira La Dolce Vita não pertence aos que gritam mais alto na plateia ou aos que ditam regras de comportamento impecáveis para os outros seguirem. Ela pertence aos poucos que assumem a responsabilidade pelo cotidiano em silêncio.

Se a lógica e o tempo nos apontam o abismo, que o talento dos nossos atletas nos devolva o inesperado — afinal, o futebol ainda é o único palco onde a poesia pode humilhar a prancheta. Mas que o relógio sem ponteiros de 2026 nos deixe, ao menos, uma lição de decência: a de que o caráter de uma nação, assim como o de um time, não se improvisa nos acréscimos.

O escritor e jornalista Nelson Rodrigues em 1967, ao fundo o Jornal Correio da Manhã
Imagem de Arquivos Nacionais do Brasil, Public domain, via Wikimedia Commons

Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do Portal. Sua publicação é no sentido de informar e, quando o caso, estimular o debate de questões do cotidiano e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo


Paulo Maia é publicitário, editor do Portal Dolce Morumbi® e há mais de 30 anos atua como profissional de comunicação e marketing.
Autor de
“Entre o silêncio e o sorriso: palavras de um certo lugar no tempo”, ”Delírios de Um Passado Aberto” e ”Nada Além da Paisagem”.

Gostou da matéria? Quer fazer comentários, críticas ou sugestões, escreva para a Dolce Morumbi®: contato@dolcemorumbi.com

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Imagem por Marcos Kulenkampff em Canva Fotos

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