Algo parece estar fuera del orden

Paulo Maia

Y también del nuevo normal

Entre abril e maio do ano passado, a expressão “novo normal” entrava no vocabulário das pessoas, no mundo todo, como algo que indicava que uma outra “normalidade” nas relações sociais e dessas com o cotidiano, emergiria da crise pandêmica, que de tão profunda e extensa, exigiria que revessemos o que estávamos fazendo para promover mudanças em nossas atitudes e regras sociais, criando novos protocolos, que valeriam pelo menos enquanto durasse a pandemia. O marketing adorou a ideia e a abraçou e vendeu sua eficácia e visão futura de que tudo, então, ficaria bem logo mais, bem ali na esquina. Muitos compraram a ideia e, entendido os tais protocolos, anunciaram: Estamos bem! Seguimos em frente. Vamos vencer ao final!

Bom, àquela altura, pelo menos aqui no Brasil, notícias da Itália, Espanha e Portugal chegavam até nós como trailers de filmes com enredos de fim do mundo. Aqui as internações já estavam crescendo e mortes acontecendo, mas achávamos que logo mais tudo passaria. Não podemos nos culpar por isso. Ninguém ali sabia com o que estava lidando. Apenas queríamos entender o que estava acontecendo para tocar nossa vida. Só não sabíamos que, justamente isso, não seria possível fazer na dimensão que queríamos.

Foto por Artam Hoomat em Unsplash

Vimos que não bastam home offices, deliveries ou take aways para nos livrarmos do mal. Ou pelo menos deixá-lo do lado de fora, usando máscara com estampas descoladas. O cansaço e as tais promessas do novo normal e dos protocolos começaram a se mostrar fakes. Há um novo normal, sim! Não este que a estupidez abraçou como moda, mas aquele que se encontra na natureza humana que abriga o horror no comportamento das pessoas; o horror ao negar a concretude da realidade; o horror ao ver a pandemia com viés ideológico; o horror no mercantilismo da inoculação do que pode nos imunizar; o horror do egoísmo e o horror da vaidade em face à tragédia da morte. Aquele horror que emerge do ódio na guerra e da falta de compaixão.

A humanidade já viveu outras tragédias na sua história e, talvez na maior delas, viu praticamente um terço de sua população morrer durante a peste negra, numa época em que não havia a ciência como a entendemos para explicação e buscar causas para propor soluções. Era a idade média e quase cinco anos se passaram até que, sem muita explicação, ela cessou. Segundo diversos historiadores, profundas convulsões religiosas, sociais e econômicas alteraram o ritmo de toda a Europa e levou quase 200 anos para que nível populacional e seu cotidiano voltasse ao que era antes. Sabemos o que é isso? Não, fazemos a menor ideia. Eu fico às vezes imaginando o que poderia estar passando na cabeça de uma pessoa comum à época. Talvez, eu digo talvez, o silêncio resultante da parca e pobre disseminação da informação fosse mais um alívio. O que nos impregna hoje com mídias e, especialmente, com redes sociais é mais um sintoma do horror da nossa época. Imagine, hoje, se algo ocorresse e levasse embora quase 2,8 bilhões de pessoas (um terço da população mundial atual)? Mais horror para a imaginação? Tá bem, vamos parar por aqui.

Foto por Frank Eiffert em Unsplash

Números ajudam a colocar as coisas em perspectivas, mas a morte é o final absoluto e é sempre difícil colocá-la em um contexto que a amenize. “A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística” é uma frase atribuída a Joseph Stalin e ilustra bem como tomamos a realidade. A tragédia quando acontece envolta em um espetáculo, nos comove e pode criar medidas de segurança e até mesmo gerar comportamentos mais responsáveis, mas quando ela ocorre de forma lenta e quase invisível, quando poderíamos evitar, pode nos levar a aceitar como “normal” ou como “destino”.

Como ilustração disso, vejo a manchete de hoje no site da Folha de S. Paulo e contraponho com a tragédia que abriu esse século: “Brasil tem pior semana da pandemia, com mais de 12 mil mortes por Covid* – Pelo 16º dia seguido, o Brasil bateu na média móvel de mortes pela Covid, que chegou a 1.832 óbitos por dia nos últimos sete dias. O país teve sua semana mais letal na pandemia, com 12.795 mortes de segunda (8) até este domingo (14). O recorde semanal de mortes anterior pertence à semana passada, com 10.482 óbitos.’” –  – *Os dados do país, coletados até as 20h, são fruto de colaboração entre Folha, UOL, O Estado de S. Paulo, Extra, O Globo e G1 para reunir e divulgar os números relativos à pandemia do novo coronavírus. As informações são coletadas diariamente com as secretarias de Saúde estaduais (Folha de S.Paulo – 14.mar.2021 às 20h12).

Os números dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos foram 2.996 (incluindo os 19 terroristas), porém há registros que indicam 3.278, quando considerados também os desaparecidos. Eu me lembro vividamente o dia dos ataques e as opiniões não apenas locais, mas mundiais que se seguiram nos dias, semanas e mesmo meses seguintes. Era impossível considerar que alguém não pudesse se indignar ou se comover com aquilo e não tivesse empatia com os mortos e com suas famílias. Na última semana, tivemos um pouco mais de quatro 11 de setembros, mas, sem espetáculo, não há comoção ou indignação suficiente para nos unir em sentimentos. Apenas o choro de quem perdeu seus entes queridos e a aflição dos milhares que estão internados e que não conseguem escapar da visão do horror que a qualquer momento pode chegar.

Foto por Tim Cooper em Unsplash

O título desse texto alude à canção “Fora da Ordem” que Caetano Veloso escreveu em 1991 e faz parte do álbum “Circuladô”. A letra da música fazia referência à frase que George Bush (senior) usou para descrever que o mundo à época entrava em uma “nova ordem mundial”, muito por conta da queda do comunismo soviético em 1989. Pois é, 10 anos depois, as torres gêmeas caiam em Nova Iorque e mais 20 anos à frente, uma pandemia leva diariamente a vida de pessoas e deixa quem ainda respira, totalmente anestesiado e inerte, sem a menor ideia do que fazer ou de como tudo isso vai acabar. Quantas previsões de futuros ainda podemos suportar com tudo isso que estamos passando? Há alguma chance de levarmos ainda alguma a sério?

Mais uma vez lamento pela melancolia no texto e pelo tema. Mas por algum tempo ainda, esse ainda será o nosso “normal”.

Paulo Maia é publicitário, um pensador livre e morador do Morumbi que mantém sua curiosidade sempre aguçada

Imagem destacada da Publicação

Foto por Ilona Panych em Unsplash

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