ESG: o capitalismo se reinventando

Eleine Bélaváry

Embora o termo tenha sido cunhado décadas atrás, ESG (sigla em inglês para Environmental, Social e Governance) é a nova realidade dos negócios. Representa a métrica que avalia as operações das empresas conforme os seus impactos em 3 eixos principais: o Meio Ambiente, o Social e a Governança. Alguns veem esse sistema como um upgrade do conceito de sustentabilidade, uma vez que o pilar governança exige mais materialidade, através do reporte de ações efetivas e mensuráveis, oferecendo mais transparência aos investidores sobre as empresas nas quais pretendem investir.

Empresas existem para oferecer soluções aos desafios da humanidade. A métrica ESG, se praticada com seriedade, pode produzir grandes ganhos ambientais, o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e economicamente inclusiva, e a estruturação de empresas que se relacionam de forma ética e transparente com todos os públicos impactados por ela – acionistas, clientes, fornecedores, colaboradores, comunidade, meio ambiente, validando o conceito de Capitalismo de Stakeholders ou Capitalismo com Propósito.

No pilar E (meio ambiente), as empresas deverão ajustar processos e produtos no sentido de reduzir seu impacto, sendo que temas como mudanças climáticas, crescente poluição e perda de biodiversidade devem estar no topo da lista de prioridades. O Social do ESG endereça aspectos de sociedade e pessoas, como relacionamento com stakeholders, novos hábitos e padrões de consumo – especialmente dos Millenials e GenZ -, desigualdade social, equidade de gênero e diversidade. A Governança refere-se ao conjunto de princípios para uma gestão responsável, transparente e ética, que devem ser aplicados de forma transversal nos outros dois pilares (E e S).

Diante do atual panorama mundial, é cada vez mais urgente que questões sociais e ambientais, em especial aquelas alinhadas aos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da Agenda 2030 da ONU, estejam no centro das tomadas de decisões da empresa. No entanto, isso tem que ser levado muito à sério, para não colocar em risco a confiança do consumidor e dos investidores, por falta de transparência ou compromisso com o que se reporta à sociedade, na lógica walk the talk.

Muitos analistas do mercado acreditam fortemente que essa tendência de investir seguindo filtros morais crescerá conforme jovens Millenials e GenZ comecem a ter dinheiro e tornem-se consumidores cada vez mais representativos. Essas gerações, especialmente a Z, estão antenadas ao impacto social e ambiental dos produtos que estão comprando, o que irá pressionar as empresas a seguirem princípios social e ambientalmente mais éticos. Seja por amor ou pela dor, adequar práticas empresariais às novas métricas não é uma simples onda, mas uma questão de sobrevivência das empresas. Aquelas que não se adaptarem terão dificuldade de atrair investimentos, conquistar e reter talentos, vender seus produtos e serviços.

Há fundos de ações e investimentos exclusivos para empresas que de fato praticam os pilares de ESG. Um grande exemplo é a BlackRock, maior gestora de patrimônio do mundo, com US$ 7,8 trilhões sob seu guarda-chuva (quase cinco vezes o PIB do Brasil), que colocou o ESG como prioridade na agenda dos seus negócios. Assim, depois da bênção da BlackRock, a quantidade de fundos que só colocam dinheiro em companhias ESG se multiplicou e o mercado financeiro adotou repetidamente o mantra de que todas as empresas vão se tornar ESG no futuro.

Muito bem. Mas como comprovar que uma empresa que se autodeclara ESG pratica de forma legítima as três letrinhas desta sigla, uma vez que o ponto de partida das análises feitas por algumas instituições são sempre informações declaradas pelas próprias empresas? Até existem algumas regras que precisam ser seguidas. Por exemplo, em 2000, a organização não-governamental Global Reporting Initiative (GRI) lançou os primeiros parâmetros para que esses relatórios não fossem apenas um “gerador de historinhas para inglês ver”. De verdade, eles apresentam metas claras, mensuráveis e de alguma forma alinhados ao negócio da empresa. Ainda assim, são autodeclaradas e, portanto, ainda torna o sistema questionável.

O fato é que ESG é uma temática sem volta e as exigências sobre as empresas certamente só vão aumentar.  Por fim, é importante destacar que essa agenda não deve ser vista como uma questão de imagem, de marketing, mas que as empresas passem a tratar seus pilares de sustentabilidade, responsabilidade social e governança com o mesmo empenho com o qual tratam seus balanços.

Eleine Bélaváry é moradora do Morumbi, bióloga e Sócia proprietária da Connexion Negócios Sustentáveis

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Comentários

  1. Adorei este conteúdo! De entendimento simples e prático, fica muito mais fácil replicar com essas palavras. Parabéns!

    • Cesar, agradeço o feedback. Realmente é preciso entender bem o que andam falando por aí, né? Mais que um tema “da moda”, é uma prática que deve ser adotada de forma legitima pelas empresas. Pelo bem da marca e de todos que se relacionam com ela. Abraço!!


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